Era sábado cedo. Ela decidiu tomar um banho, para inaugurar o final de semana com ânimo revigorado. No banheiro, enxergou-se no grande espelho que escolhera instalar e sentiu-se mais nua do que estava, maior do que o espelho — que estava longe de ser daqueles de aumento. Seu corpo era o retrato de todo o peso que carregava. O corpo escancarava que ela engolia dores, mágoas, frustrações, desilusões.
"Chega!" Na segunda-feira, por mais clichê que fosse, começaria uma dieta. "A transformação física acaba sendo, também, uma transformação psíquica, dizem. E vice-versa."
Durante os dois dias prévios, reorganizou a sua vida, a dispensa e a geladeira. Na segunda-feira pela manhã, animada, bebeu apenas uma xícara de café preto e amargo, e comeu uma banana. Isso seria o suficiente. "Afinal, nós comemos para reabastecer as energias do corpo. A maior parte do que ingerimos são venenos, não alimentos, com o objetivo de suprir prazeres irracionais."
No caminho para o trabalho, o trânsito a estressou mais do que o necessário. "Como as pessoas se revelam no trânsito! Todo mundo só pensa no próprio umbigo!"
Chegando perto do seu emprego, precisava estacionar. Por sorte, encontrou uma vaga bem pertinho do endereço. Assim, dessa vez, ela não se atrasaria. "Viu só? Nem tudo é ruim! É preciso aprender a enxergar o lado bom das coisas, aquilo que acontece de positivo em nossos dias."
Logo no início do expediente, deparou-se com uma quantidade absurda de tarefas para fazer, a maior parte sem qualquer resultado prático. Amuada, arregaçou as mangas e começou a lida, mas sem deixar de procurar uma balinha perdida na bolsa. Seria uma só. Não faria diferença.
No horário do almoço, foi ao restaurante de sempre e preparou um prato bem equilibrado e pouco calórico, considerando, contudo, as calorias da bala, que a fizeram, por remorso, servir-se ainda em menor quantidade. Ela que aguentasse! Ninguém mandou fraquejar. "Disciplina constante!"
À tarde, encontrou o ambiente profissional um pouco mais amistoso. No entanto, na metade do turno, deparou-se com a sua chefe, que a chamou para uma "conversinha", num tom comparável a um espancamento verbal, que a nocauteou emocional e psicologicamente.
Foi ao banheiro para chorar e recompor o seu personagem. Melhor chorar do que descontar na comida. "Quem sabe, as lágrimas até gastassem algumas calorias…"
Enquanto isso, espiando o celular, viu duas faturas que haviam entrado no e-mail e que venceriam logo, assim como uma mensagem do seu contador avisando sobre os prazos da declaração do imposto de renda.
"Tudo bem. Normal. Paciência. Faz parte."
Findo o expediente, voltou para casa, aliviada, mas quase sem forças para ficar em pé. Na sequência, seu filho pré-adolescente retornou da escola, já com a agenda na mão. Ele havia levado um bilhete, que pedia para ela ir no dia seguinte conversar com a direção. O menino não havia feito a lição de casa e, ainda, tinha discutido com a professora.
Essa praga havia passado o fim de semana na casa do pai, que não acompanhava o desempenho escolar e deixava o filho à vontade diante das telas. "É nisso que dá!"
Antes que sua mente cansada processasse o golpe, o malandro correu para debaixo do chuveiro.
Então, após largar a agenda sobre a mesa da cozinha, ela foi ao armário, pegou uma barra de chocolate que decidira guardar para o filho, abriu-a e a devorou vorazmente.
"Dane-se!"
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