domingo, 26 de abril de 2026

Meia-noite e seis


O primeiro sinal veio em um grupo de amigos numa rede social. André enviara um áudio de dez segundos combinando o churrasco de sábado. A resposta de seu melhor amigo, Thiago, veio em caixa alta: “PRECISAVA DISSO, CARA? SE NÃO QUER IR, É SÓ DIZER. NÃO PRECISA MEXER COM O MEU PAI.”

André desmoronou, arrepiado, suando frio, tremendo as pernas. Reproduziu o próprio áudio. A voz era a sua, certamente, com o mesmo sotaque, o mesmo jeito de falar. Mas as palavras eram um esgoto de ofensas detalhadas sobre a doença do pai de Thiago. Ele sentiu um gelo na nuca. “Foi um vírus. Não, não pode ter sido. Será?” Desorientado, pensava nisso enquanto digitava com dificuldade o pedido de desculpas que ninguém visualizou.

Ao longo da tarde, foi soterrado por uma avalanche de respostas que o retrucavam. Cada áudio enviado para clientes, para a namorada, até para a atendente da farmácia, era distorcido de maneira enigmática, sombria e cruel. Ele inclusive tentou gravar um áudio mudo, cujo resultado foi um rosnado metálico de trinta segundos que fez sua namorada bloqueá-lo imediatamente.

Não era apenas um hacker. Aquilo não queria dinheiro ou vingança. Queria ele sozinho, isolado. Também não era trote. Era a desconstrução de uma vida. Da sua vida!

Às onze da noite, o apartamento de André parecia maior do que o normal. A solidão e a desolação o assolavam. No topo da lista de conversas, estava o título "Anotações", uma espécie de contato consigo mesmo, um lembrete para os seus compromissos. Havia uma notificação: “(0:06) mensagem de áudio”. Ele não a gravara.

O play revelou uma voz que lembrava a sua, mas triturada em um moedor de carne. Era uma língua que ele não conhecia, que arrepiava até os seus pelos mais reservados.

Desesperado, abriu o aplicativo de Inteligência Artificial. "Traduza este áudio e identifique o idioma", comandou, anexando o arquivo.

A barra de processamento girou. O silêncio no quarto era quase absoluto. Só a geladeira fazia o seu tradicional ruído na cozinha e um cachorro latia lá fora, onde a vida seguia normalmente.

A resposta da IA surgiu com a calma fria das máquinas: "O áudio enviado não corresponde a nenhum idioma humano. É inglês arcaico, mas dito ao contrário e de maneira ininteligível. A tradução literal é: VOCÊ VAI MORRER EM BREVE. Além disso, detecto uma segunda voz na gravação, sobreposta à sua, captada a 0,5 cm do seu microfone."

André soltou o aparelho. O celular caiu no carpete com a tela virada para cima, iluminando o teto. Se a voz fora captada a meio centímetro do microfone enquanto ele segurava o telefone...

Ele sentiu o hálito frio em sua orelha antes de ouvir o clique metálico do celular iniciando uma nova gravação, sozinho.


[Manhã seguinte]


O rádio de pilha na cozinha de um vizinho chiava com as notícias locais:

"... e a polícia ainda não tem pistas sobre o caso do jovem encontrado morto há algumas horas em seu apartamento no centro. O corpo de André M. foi localizado sem sinais de arrombamento ou luta. O que intriga os peritos, no entanto, é o estado do seu aparelho celular. O dispositivo foi encontrado fundido à palma da mão direita da vítima, como se tivesse derretido por um calor intenso, embora o restante do quarto permanecesse intacto. No histórico de chamadas, havia apenas uma ligação efetuada às três da manhã para o próprio número. Curiosamente, a operadora registrou a chamada como atendida.”


quarta-feira, 1 de abril de 2026

Dieta diária

Era sábado cedo. Ela decidiu tomar um banho, para inaugurar o final de semana com ânimo revigorado. No banheiro, enxergou-se no grande espelho que escolhera instalar e sentiu-se mais nua do que estava, maior do que o espelho — que estava longe de ser daqueles de aumento. Seu corpo era o retrato de todo o peso que carregava. O corpo escancarava que ela engolia dores, mágoas, frustrações, desilusões.

"Chega!" Na segunda-feira, por mais clichê que fosse, começaria uma dieta. "A transformação física acaba sendo, também, uma transformação psíquica, dizem. E vice-versa."

Durante os dois dias prévios, reorganizou a sua vida, a dispensa e a geladeira. Na segunda-feira pela manhã, animada, bebeu apenas uma xícara de café preto e amargo, e comeu uma banana. Isso seria o suficiente. "Afinal, nós comemos para reabastecer as energias do corpo. A maior parte do que ingerimos são venenos, não alimentos, com o objetivo de suprir prazeres irracionais."

No caminho para o trabalho, o trânsito a estressou mais do que o necessário. "Como as pessoas se revelam no trânsito! Todo mundo só pensa no próprio umbigo!"

Chegando perto do seu emprego, precisava estacionar. Por sorte, encontrou uma vaga bem pertinho do endereço. Assim, dessa vez, ela não se atrasaria. "Viu só? Nem tudo é ruim! É preciso aprender a enxergar o lado bom das coisas, aquilo que acontece de positivo em nossos dias."

Logo no início do expediente, deparou-se com uma quantidade absurda de tarefas para fazer, a maior parte sem qualquer resultado prático. Amuada, arregaçou as mangas e começou a lida, mas sem deixar de procurar uma balinha perdida na bolsa. Seria uma só. Não faria diferença.

No horário do almoço, foi ao restaurante de sempre e preparou um prato bem equilibrado e pouco calórico, considerando, contudo, as calorias da bala, que a fizeram, por remorso, servir-se ainda em menor quantidade. Ela que aguentasse! Ninguém mandou fraquejar. "Disciplina constante!"

À tarde, encontrou o ambiente profissional um pouco mais amistoso. No entanto, na metade do turno, deparou-se com a sua chefe, que a chamou para uma "conversinha", num tom comparável a um espancamento verbal, que a nocauteou emocional e psicologicamente.

Foi ao banheiro para chorar e recompor o seu personagem. Melhor chorar do que descontar na comida. "Quem sabe, as lágrimas até gastassem algumas calorias…"

Enquanto isso, espiando o celular, viu duas faturas que haviam entrado no e-mail e que venceriam logo, assim como uma mensagem do seu contador avisando sobre os prazos da declaração do imposto de renda.

"Tudo bem. Normal. Paciência. Faz parte."

Findo o expediente, voltou para casa, aliviada, mas quase sem forças para ficar em pé. Na sequência, seu filho pré-adolescente retornou da escola, já com a agenda na mão. Ele havia levado um bilhete, que pedia para ela ir no dia seguinte conversar com a direção. O menino não havia feito a lição de casa e, ainda, tinha discutido com a professora.

Essa praga havia passado o fim de semana na casa do pai, que não acompanhava o desempenho escolar e deixava o filho à vontade diante das telas. "É nisso que dá!"

Antes que sua mente cansada processasse o golpe, o malandro correu para debaixo do chuveiro.

Então, após largar a agenda sobre a mesa da cozinha, ela foi ao armário, pegou uma barra de chocolate que decidira guardar para o filho, abriu-a e a devorou vorazmente.

"Dane-se!"