Mantra
Cansado de recalcular seus fracassos, decidiu tentar dormir, buscando algum tempo de inconsciência. Sua consciência latejava! Como seria bom se, durante essa tentativa, sua existência se entregasse definitivamente. Talvez doesse, mas seria uma dor final. Uma dor física lancinante seria preferível a uma dor psíquica constante, conjecturava.
Como em todas as noites, deitou-se repetindo mentalmente o mantra “que eu não acorde, que eu não acorde…”, prece que era atendida da mesma maneira que aquelas que ele fazia quando ainda tinha alguma fé, alguma esperança.
Toda vida humana deve ter um destino. A dele, por sua vez, não tinha sentido algum. Não sabia mais para onde ir, nem onde se encontrava. Em todas as direções, sempre fora o mais frustrado. Queria algo mais, mas era insignificante, vazio (ou cheio demais).
Quem sabe, só sentiriam a sua falta quando não estivesse mais ali. Sim. É certo que sentiriam! Ele tem sido um ótimo funcionário, cobrindo as faltas e as falhas dos outros, dos que vivem. Ele sempre foi útil, menos para ele mesmo. Sempre fez favores – só nunca fez o favor de se dar algum valor.
Adormeceu. A dor cessou...
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