quarta-feira, 1 de abril de 2026

Dieta diária

Era sábado cedo. Ela decidiu tomar um banho, para inaugurar o final de semana com ânimo revigorado. No banheiro, enxergou-se no grande espelho que escolhera instalar e sentiu-se mais nua do que estava, maior do que o espelho — que estava longe de ser daqueles de aumento. Seu corpo era o retrato de todo o peso que carregava. O corpo escancarava que ela engolia dores, mágoas, frustrações, desilusões.

"Chega!" Na segunda-feira, por mais clichê que fosse, começaria uma dieta. "A transformação física acaba sendo, também, uma transformação psíquica, dizem. E vice-versa."

Durante os dois dias prévios, reorganizou a sua vida, a dispensa e a geladeira. Na segunda-feira pela manhã, animada, bebeu apenas uma xícara de café preto e amargo, e comeu uma banana. Isso seria o suficiente. "Afinal, nós comemos para reabastecer as energias do corpo. A maior parte do que ingerimos são venenos, não alimentos, com o objetivo de suprir prazeres irracionais."

No caminho para o trabalho, o trânsito a estressou mais do que o necessário. "Como as pessoas se revelam no trânsito! Todo mundo só pensa no próprio umbigo!"

Chegando perto do seu emprego, precisava estacionar. Por sorte, encontrou uma vaga bem pertinho do endereço. Assim, dessa vez, ela não se atrasaria. "Viu só? Nem tudo é ruim! É preciso aprender a enxergar o lado bom das coisas, aquilo que acontece de positivo em nossos dias."

Logo no início do expediente, deparou-se com uma quantidade absurda de tarefas para fazer, a maior parte sem qualquer resultado prático. Amuada, arregaçou as mangas e começou a lida, mas sem deixar de procurar uma balinha perdida na bolsa. Seria uma só. Não faria diferença.

No horário do almoço, foi ao restaurante de sempre e preparou um prato bem equilibrado e pouco calórico, considerando, contudo, as calorias da bala, que a fizeram, por remorso, servir-se ainda em menor quantidade. Ela que aguentasse! Ninguém mandou fraquejar. "Disciplina constante!"

À tarde, encontrou o ambiente profissional um pouco mais amistoso. No entanto, na metade do turno, deparou-se com a sua chefe, que a chamou para uma "conversinha", num tom comparável a um espancamento verbal, que a nocauteou emocional e psicologicamente.

Foi ao banheiro para chorar e recompor o seu personagem. Melhor chorar do que descontar na comida. "Quem sabe, as lágrimas até gastassem algumas calorias…"

Enquanto isso, espiando o celular, viu duas faturas que haviam entrado no e-mail e que venceriam logo, assim como uma mensagem do seu contador avisando sobre os prazos da declaração do imposto de renda.

"Tudo bem. Normal. Paciência. Faz parte."

Findo o expediente, voltou para casa, aliviada, mas quase sem forças para ficar em pé. Na sequência, seu filho pré-adolescente retornou da escola, já com a agenda na mão. Ele havia levado um bilhete, que pedia para ela ir no dia seguinte conversar com a direção. O menino não havia feito a lição de casa e, ainda, tinha discutido com a professora.

Essa praga havia passado o fim de semana na casa do pai, que não acompanhava o desempenho escolar e deixava o filho à vontade diante das telas. "É nisso que dá!"

Antes que sua mente cansada processasse o golpe, o malandro correu para debaixo do chuveiro.

Então, após largar a agenda sobre a mesa da cozinha, ela foi ao armário, pegou uma barra de chocolate que decidira guardar para o filho, abriu-a e a devorou vorazmente.

"Dane-se!"

terça-feira, 31 de março de 2026

Mantra

Mantra

 

Cansado de recalcular seus fracassos, decidiu tentar dormir, buscando algum tempo de inconsciência. Sua consciência latejava! Como seria bom se, durante essa tentativa, sua existência se entregasse definitivamente. Talvez doesse, mas seria uma dor final. Uma dor física lancinante seria preferível a uma dor psíquica constante, conjecturava.

 

Como em todas as noites, deitou-se repetindo mentalmente o mantra “que eu não acorde, que eu não acorde…”, prece que era atendida da mesma maneira que aquelas que ele fazia quando ainda tinha alguma fé, alguma esperança.

 

Toda vida humana deve ter um destino. A dele, por sua vez, não tinha sentido algum. Não sabia mais para onde ir, nem onde se encontrava. Em todas as direções, sempre fora o mais frustrado. Queria algo mais, mas era insignificante, vazio (ou cheio demais).

 

Quem sabe, só sentiriam a sua falta quando não estivesse mais ali. Sim. É certo que sentiriam! Ele tem sido um ótimo funcionário, cobrindo as faltas e as falhas dos outros, dos que vivem. Ele sempre foi útil, menos para ele mesmo. Sempre fez favores – só nunca fez o favor de se dar algum valor.

 

Adormeceu. A dor cessou...

terça-feira, 24 de março de 2026

Nossas turmas na escola e a imprevisibilidade da vida

Hoje pela manhã, pensei: poucas coisas demonstram tão bem a imprevisibilidade da vida quanto as nossas turmas na escola.

No fim de cada ano letivo, os alunos costumam imaginar que, no próximo, tudo permanecerá igual: os mesmos colegas, professores, amigos — quem sabe até a mesma sala.

Mas quando o futuro se torna presente, surgem os estranhamentos: alguns mudaram de turma, de escola, de cidade; outros foram reprovados; e há sempre os recém-chegados, vindos de outros lugares ou repetindo o ano. Ao mesmo tempo, antigos amigos podem já não se reconhecer. Afinal, as pessoas mudam mesmo sem sair do lugar.

A ambientação ao novo é difícil para ambos os lados: para quem já se sente pertencente ao ambiente e se incomoda com o novo contexto, e para quem chega e precisa desbravar prédios e pessoas, tentando construir pontes em vez de muros. Para os que permanecem, cabe o acolhimento. Para os que chegam, a coragem. Para todos, a aceitação.

No fim, o tempo acomoda tudo e nos mostra que a vida não deveria ser maremoto, mas sempre lago.


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Sobre enigmas e (pré)concepções

Poetas, consagrados e anônimos, normalmente dizem que é feio explicar um poema, quase um pecado. Para estes, quem ousa fazer isso age como o Mister M, que demonstrava como os truques de mágica funcionavam, provocando o fim do encantamento. Eles enxergam a poesia como um enigma. Tudo bem se esse enigma respeitar interpretações possíveis a cada história de vida. Mas, quando intenta uma conclusão absoluta, há, certamente, o esvaziamento da mágica.

Não considero de todo condenável a elucidação do autor a respeito da sua obra. Até porque há muitas delas quase indecifráveis. E sinto que os indivíduos perdem o interesse por aquilo que não entendem.

Lembro-me bem das professoras que me ensinaram a ler: a da primeira série, que me mostrou como decodificar as letras; a do ensino médio, que me orientou sobre como identificar características e figuras de linguagem; a do ensino superior, que me fez enxergar nas entrelinhas e saborear os diferentes usos da língua. Creio que as duas últimas foram as que me ensinaram a ler, e a gostar de ler, de verdade.

Por isso, acredito que o escritor que demonstra os modos de construção da sua obra não está entregando o ouro, desfazendo a mística nem prejudicando a experiência. Para muitas pessoas comuns, que têm pouco contato com a Literatura, isso é fundamental para estabelecer compreensão e provocar a vontade de experimentar mais, de provar se elas também são capazes de perceber.

Do contrário, as mesmas razões que afastam indivíduos da Matemática, por exemplo, irão distanciá-los da poesia.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Quais são os passos básicos para a escrita de poemas?

A poesia é o ato de o escritor conseguir transformar os sentidos das palavras e, com isso, mexer com os sentidos dos leitores. Sendo assim, nunca devemos nos esquecer de que poesia é uma característica, um trabalho linguístico, que pode ser encontrado em qualquer texto, enquanto poema é a produção em versos propriamente dita.

Em relação à escrita de poemas, há dois métodos principais: ou o escritor aguarda a chegada da inspiração, a qual ocorre quando a ideia vem completa ou parcialmente pronta à mente, ou ele pensa em uma ideia interessante a ser desenvolvida, escreve uma versão inicial e passa a revisá-la, de modo a construir versos e estrofes cada vez mais criativos. No entanto, não podemos nos enganar: mesmo quando o poema é fruto de mera inspiração — o que costuma resultar em boas criações —, é preciso realizar uma lapidação posterior. Assim como acontece com as pedras preciosas, trata-se da retirada das impurezas, daquilo que não tem qualidade, buscando dar maior valor ao texto final.

Esse processo de revisão também se aplica à elaboração dos versos e das estrofes. Mas o que devemos levar em conta nessa tarefa? Em primeiro lugar, é importante lembrar que versos são as linhas do poema, enquanto estrofes são os conjuntos de versos; ou seja, ao deixarmos um espaço entre esses conjuntos, criamos uma nova estrofe. Em segundo lugar, precisamos nos atentar ao ritmo do texto, que pode ser, ou não, reforçado pelas rimas. De qualquer forma, o poema deve apresentar certa musicalidade, mesmo quando não faz uso delas.

Para quem não sabe, rimas são terminações idênticas ou muito semelhantes presentes nos poemas e nas letras de música, isto é, nos textos em verso. Elas podem ser observadas, por exemplo, em “nariz” e “feliz”, “ação” e “coração”, “janela” e “panela”, assim como em “cachimbo” e “domingo”, “água” e “mágoa”. As rimas podem ocorrer no final dos versos, o que é mais comum, ou no interior deles, recurso menos frequente por exigir maior complexidade na construção do poema.

Em terceiro lugar, sempre visando à máxima criatividade e à riqueza do texto, o poeta deve saborear as palavras, utilizando-as da maneira mais provocativa possível, ressignificando-as e organizando-as de modo a destacar determinados termos nos versos. Isso porque a forma de empregar as palavras, bem como a estrutura dos versos e das estrofes, interfere diretamente no significado geral e no ritmo do poema.

Como uma quarta etapa, é possível explorar recursos expressivos como a repetição de palavras, de versos ou de sons de uma mesma vogal ou consoante, com a intenção de criar efeitos de sentido e estabelecer uma musicalidade sugestiva no texto poético.

Por fim, surge a pergunta: sobre o que podemos falar em um poema? Via de regra, um poema pode versar sobre qualquer assunto. Ainda assim, a poesia tem sido, historicamente, um mecanismo essencial para a expressão de sentimentos, pensamentos e percepções, em  suma, de ideias e ideais. Antes de tudo, para fazer um poema, é necessário aprender a se ouvir. Trata-se, primeiro, de uma conversa do poeta consigo mesmo e, só depois, de uma conversa com o leitor. Escrever poesia, enfim, é um exercício de autoconhecimento.