terça-feira, 31 de março de 2026

Mantra

Mantra

 

Cansado de recalcular seus fracassos, decidiu tentar dormir, buscando algum tempo de inconsciência. Sua consciência latejava! Como seria bom se, durante essa tentativa, sua existência se entregasse definitivamente. Talvez doesse, mas seria uma dor final. Uma dor física lancinante seria preferível a uma dor psíquica constante, conjecturava.

 

Como em todas as noites, deitou-se repetindo mentalmente o mantra “que eu não acorde, que eu não acorde…”, prece que era atendida da mesma maneira que aquelas que ele fazia quando ainda tinha alguma fé, alguma esperança.

 

Toda vida humana deve ter um destino. A dele, por sua vez, não tinha sentido algum. Não sabia mais para onde ir, nem onde se encontrava. Em todas as direções, sempre fora o mais frustrado. Queria algo mais, mas era insignificante, vazio (ou cheio demais).

 

Quem sabe, só sentiriam a sua falta quando não estivesse mais ali. Sim. É certo que sentiriam! Ele tem sido um ótimo funcionário, cobrindo as faltas e as falhas dos outros, dos que vivem. Ele sempre foi útil, menos para ele mesmo. Sempre fez favores – só nunca fez o favor de se dar algum valor.

 

Adormeceu. A dor cessou...

terça-feira, 24 de março de 2026

Nossas turmas na escola e a imprevisibilidade da vida

Hoje pela manhã, pensei: poucas coisas demonstram tão bem a imprevisibilidade da vida quanto as nossas turmas na escola.

No fim de cada ano letivo, os alunos costumam imaginar que, no próximo, tudo permanecerá igual: os mesmos colegas, professores, amigos — quem sabe até a mesma sala.

Mas quando o futuro se torna presente, surgem os estranhamentos: alguns mudaram de turma, de escola, de cidade; outros foram reprovados; e há sempre os recém-chegados, vindos de outros lugares ou repetindo o ano. Ao mesmo tempo, antigos amigos podem já não se reconhecer. Afinal, as pessoas mudam mesmo sem sair do lugar.

A ambientação ao novo é difícil para ambos os lados: para quem já se sente pertencente ao ambiente e se incomoda com o novo contexto, e para quem chega e precisa desbravar prédios e pessoas, tentando construir pontes em vez de muros. Para os que permanecem, cabe o acolhimento. Para os que chegam, a coragem. Para todos, a aceitação.

No fim, o tempo acomoda tudo e nos mostra que a vida não deveria ser maremoto, mas sempre lago.


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Sobre enigmas e (pré)concepções

Poetas, consagrados e anônimos, normalmente dizem que é feio explicar um poema, quase um pecado. Para estes, quem ousa fazer isso age como o Mister M, que demonstrava como os truques de mágica funcionavam, provocando o fim do encantamento. Eles enxergam a poesia como um enigma. Tudo bem se esse enigma respeitar interpretações possíveis a cada história de vida. Mas, quando intenta uma conclusão absoluta, há, certamente, o esvaziamento da mágica.

Não considero de todo condenável a elucidação do autor a respeito da sua obra. Até porque há muitas delas quase indecifráveis. E sinto que os indivíduos perdem o interesse por aquilo que não entendem.

Lembro-me bem das professoras que me ensinaram a ler: a da primeira série, que me mostrou como decodificar as letras; a do ensino médio, que me orientou sobre como identificar características e figuras de linguagem; a do ensino superior, que me fez enxergar nas entrelinhas e saborear os diferentes usos da língua. Creio que as duas últimas foram as que me ensinaram a ler, e a gostar de ler, de verdade.

Por isso, acredito que o escritor que demonstra os modos de construção da sua obra não está entregando o ouro, desfazendo a mística nem prejudicando a experiência. Para muitas pessoas comuns, que têm pouco contato com a Literatura, isso é fundamental para estabelecer compreensão e provocar a vontade de experimentar mais, de provar se elas também são capazes de perceber.

Do contrário, as mesmas razões que afastam indivíduos da Matemática, por exemplo, irão distanciá-los da poesia.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Quais são os passos básicos para a escrita de poemas?

A poesia é o ato de o escritor conseguir transformar os sentidos das palavras e, com isso, mexer com os sentidos dos leitores. Sendo assim, nunca devemos nos esquecer de que poesia é uma característica, um trabalho linguístico, que pode ser encontrado em qualquer texto, enquanto poema é a produção em versos propriamente dita.

Em relação à escrita de poemas, há dois métodos principais: ou o escritor aguarda a chegada da inspiração, a qual ocorre quando a ideia vem completa ou parcialmente pronta à mente, ou ele pensa em uma ideia interessante a ser desenvolvida, escreve uma versão inicial e passa a revisá-la, de modo a construir versos e estrofes cada vez mais criativos. No entanto, não podemos nos enganar: mesmo quando o poema é fruto de mera inspiração — o que costuma resultar em boas criações —, é preciso realizar uma lapidação posterior. Assim como acontece com as pedras preciosas, trata-se da retirada das impurezas, daquilo que não tem qualidade, buscando dar maior valor ao texto final.

Esse processo de revisão também se aplica à elaboração dos versos e das estrofes. Mas o que devemos levar em conta nessa tarefa? Em primeiro lugar, é importante lembrar que versos são as linhas do poema, enquanto estrofes são os conjuntos de versos; ou seja, ao deixarmos um espaço entre esses conjuntos, criamos uma nova estrofe. Em segundo lugar, precisamos nos atentar ao ritmo do texto, que pode ser, ou não, reforçado pelas rimas. De qualquer forma, o poema deve apresentar certa musicalidade, mesmo quando não faz uso delas.

Para quem não sabe, rimas são terminações idênticas ou muito semelhantes presentes nos poemas e nas letras de música, isto é, nos textos em verso. Elas podem ser observadas, por exemplo, em “nariz” e “feliz”, “ação” e “coração”, “janela” e “panela”, assim como em “cachimbo” e “domingo”, “água” e “mágoa”. As rimas podem ocorrer no final dos versos, o que é mais comum, ou no interior deles, recurso menos frequente por exigir maior complexidade na construção do poema.

Em terceiro lugar, sempre visando à máxima criatividade e à riqueza do texto, o poeta deve saborear as palavras, utilizando-as da maneira mais provocativa possível, ressignificando-as e organizando-as de modo a destacar determinados termos nos versos. Isso porque a forma de empregar as palavras, bem como a estrutura dos versos e das estrofes, interfere diretamente no significado geral e no ritmo do poema.

Como uma quarta etapa, é possível explorar recursos expressivos como a repetição de palavras, de versos ou de sons de uma mesma vogal ou consoante, com a intenção de criar efeitos de sentido e estabelecer uma musicalidade sugestiva no texto poético.

Por fim, surge a pergunta: sobre o que podemos falar em um poema? Via de regra, um poema pode versar sobre qualquer assunto. Ainda assim, a poesia tem sido, historicamente, um mecanismo essencial para a expressão de sentimentos, pensamentos e percepções, em  suma, de ideias e ideais. Antes de tudo, para fazer um poema, é necessário aprender a se ouvir. Trata-se, primeiro, de uma conversa do poeta consigo mesmo e, só depois, de uma conversa com o leitor. Escrever poesia, enfim, é um exercício de autoconhecimento.

sábado, 20 de dezembro de 2025

Dicas de filmes - Parte 25

01- "Florence: Quem é essa mulher?" (Florence Foster Jenkins), dirigido por Stephen Frears (2016);

- Baseado na extraordinária história de vida de Florence Foster Jenkins e contando com atuações brilhantes de Meryl Streep, Hugh Grant e Simon Helberg, o filme é hilário ao ponto de provocar gargalhadas e comovente o suficiente para arrancar lágrimas — tudo no momento certo.


02- "Caramelo", dirigido por Diego Freitas (2025);

- Drama estrelado por Rafael Vitti e pelo cão Amendoim, acompanha Pedro, um jovem cozinheiro que vê seus planos mudarem após um diagnóstico inesperado. A chegada de um vira-lata transforma sua rotina e revela lições de amizade, empatia e autocuidado. O longa aborda o abandono e o acolhimento de animais, emocionando com a delicada relação entre homem e cão.


03- "Mundos Opostos" (Enos Allos Kosmos), dirigido por Christopher Papakaliatis (2016);

-  O filme entrelaça três histórias de gregos que se apaixonam por imigrantes, refletindo dilemas universais como imigração, preconceito e xenofobia, além de combinar poesia e realismo, oferecendo ao público atuações convincentes e diálogos memoráveis. Para mim, sua produção impecável e relevância temática são ingredientes suficientes para transformá-lo num clássico.


04- "Cordeiros e Carrascos" (Shepherds and Butchers), dirigido por Oliver Schmitz (2017);

- Inspirado em fatos reais, esse potente longa-metragem tem como protagonista o advogado John Weber, contrário à pena de morte, que defende no tribunal um jovem acusado de assassinar sete homens. Antes de cometer o crime, o rapaz trabalhava como guarda de prisão, justamente no corredor da morte. Um filme forte, que provoca reflexões fundamentais.


05- "A Princesinha" (A Little Princess), dirigido por Alfonso Cuarón (1995).

- Adaptação da obra de Frances Hodgson Burnett, esse filme mostra que a verdadeira nobreza está presente no caráter, e não nas posses. Com atuações marcantes e uma narrativa sensível, "A Princesinha" revela como a imaginação e a bondade podem suavizar realidades duras. Embora voltado ao público infantil, é uma obra que emociona e ensina em qualquer idade.