terça-feira, 26 de maio de 2026

Dicas de filmes - Parte 26

01- "Uma lição de amor" (I am Sam), dirigido por Jessie Nelson (2001);

- Neste filme incrivelmente emocionante, Sean Penn interpreta um homem com deficiência intelectual que acaba sendo abandonado à própria sorte com a filha recém-nascida. Até a primeira infância da menina, ele se vira relativamente bem, sempre contando com o auxílio dos amigos, e os dois estabelecem uma linda relação. Porém, quando a justiça decide questionar a capacidade de Sam de cuidar da criança, a bolha criada por ambos se estoura, desafiando o protagonista a mostrar do que é capaz. Contando com uma contagiante trilha sonora baseada em The Beatles, essa produção amolece qualquer coração de pedra.


02- "A Minha Versão do Amor" (Barney's Version), dirigido por Richard J. Lewis (2011);

- Baseado em um romance escrito pelo canadense Mordecai Richler, este filme superou demais as minhas expectativas. Até pensava que seria um longa-metragem bom de ver, mas não imaginava que tratasse de uma narrativa tão arrebatadora. A produção protagonizada pelo talentoso Paul Giamatti conta a história de vida de Barney Panofski de uma maneira muito humana, capaz de provocar a identificação da maior parte do público, já que a trajetória do personagem apresenta idas e vindas, mudanças de rota, acertos e tropeços, auge e decadência, aspectos que todos temos presentes em nossas existências. Uma obra que me levou às lágrimas.


03- "João Paulo II" (Pope John Paul II), dirigido por John Kent Harrison (2005);

- Eu já havia visto outros filmes sobre a trajetória do Papa João Paulo II, mas este cativou-me profundamente. Em pouco mais de três horas, a produção, de ritmo contemplativo, retrata a vida de Karol Wojtyla, trazendo muito contexto histórico, social e político. Aborda também as razões que levaram a Igreja Católica à escolha do cardeal polonês como novo Papa, assim como sua relação com o futuro Papa Bento XVI, o que achei bastante interessante. As atuações são marcantes, especialmente a de Jon Voight, que interpreta Wojtyla a partir da eleição — uma transição que considerei muito bem conduzida.


04- "Cisne Negro" (Black Swan), dirigido por Darren Aronofsky (2010);

- "Cisne Negro" surpreendeu-me bastante. É um filme moderno (considerando a vasta história do cinema), mas traz características que o transformam em um clássico instantâneo — sobretudo aquelas que o aproximam de obras como "Suspiria", de Dario Argento — embora a produção dirigida por Darren Aronofsky aposte em um terror psicológico mais íntimo e criativamente perturbador. O longa-metragem em questão é daquelas preciosidades que proporcionam inúmeras camadas de interpretação, todas aproveitáveis e difíceis de esgotar. Tão belo quanto Natalie Portman, tão sedutor quanto Mila Kunis, tão visceral quanto a atuação de Vincent Cassel.


05- "Yesterday" (Yesterday), dirigido por Danny Boyle (2019).

- "Yesterday" é um aclamado filme que parte de um curioso apagão global, fazendo com que toda a humanidade se esqueça dos Beatles — com exceção de um talentoso e humilde músico. Confesso que esperava apenas um longa-metragem divertido; contudo, deparei-me com um roteiro que aborda diversas facetas significativas da carreira artística e da fama. A obra oferece muitas reflexões ao público que se deixa cativar, pois essas provocações estão inteligentemente implícitas em cenas triviais e previsíveis, tornando "Yesterday" simultaneamente denso e comercial. A atuação consistente de Himesh Patel e o brilho inevitável de Lily James são outros ingredientes que transformam esse filme em uma experiência inesquecível.

domingo, 26 de abril de 2026

Meia-noite e seis


O primeiro sinal veio em um grupo de amigos numa rede social. André enviara um áudio de dez segundos combinando o churrasco de sábado. A resposta de seu melhor amigo, Thiago, veio em caixa alta: “PRECISAVA DISSO, CARA? SE NÃO QUER IR, É SÓ DIZER. NÃO PRECISA MEXER COM O MEU PAI.”

André desmoronou, arrepiado, suando frio, tremendo as pernas. Reproduziu o próprio áudio. A voz era a sua, certamente, com o mesmo sotaque, o mesmo jeito de falar. Mas as palavras eram um esgoto de ofensas detalhadas sobre a doença do pai de Thiago. Ele sentiu um gelo na nuca. “Foi um vírus. Não, não pode ter sido. Será?” Desorientado, pensava nisso enquanto digitava com dificuldade o pedido de desculpas que ninguém visualizou.

Ao longo da tarde, foi soterrado por uma avalanche de respostas que o retrucavam. Cada áudio enviado para clientes, para a namorada, até para a atendente da farmácia, era distorcido de maneira enigmática, sombria e cruel. Ele inclusive tentou gravar um áudio mudo, cujo resultado foi um rosnado metálico de trinta segundos que fez sua namorada bloqueá-lo imediatamente.

Não era apenas um hacker. Aquilo não queria dinheiro ou vingança. Queria ele sozinho, isolado. Também não era trote. Era a desconstrução de uma vida. Da sua vida!

Às onze da noite, o apartamento de André parecia maior do que o normal. A solidão e a desolação o assolavam. No topo da lista de conversas, estava o título "Anotações", uma espécie de contato consigo mesmo, um lembrete para os seus compromissos. Havia uma notificação: “(0:06) mensagem de áudio”. Ele não a gravara.

O play revelou uma voz que lembrava a sua, mas triturada em um moedor de carne. Era uma língua que ele não conhecia, que arrepiava até os seus pelos mais reservados.

Desesperado, abriu o aplicativo de Inteligência Artificial. "Traduza este áudio e identifique o idioma", comandou, anexando o arquivo.

A barra de processamento girou. O silêncio no quarto era quase absoluto. Só a geladeira fazia o seu tradicional ruído na cozinha e um cachorro latia lá fora, onde a vida seguia normalmente.

A resposta da IA surgiu com a calma fria das máquinas: "O áudio enviado não corresponde a nenhum idioma humano. É inglês arcaico, mas dito ao contrário e de maneira ininteligível. A tradução literal é: VOCÊ VAI MORRER EM BREVE. Além disso, detecto uma segunda voz na gravação, sobreposta à sua, captada a 0,5 cm do seu microfone."

André soltou o aparelho. O celular caiu no carpete com a tela virada para cima, iluminando o teto. Se a voz fora captada a meio centímetro do microfone enquanto ele segurava o telefone...

Ele sentiu o hálito frio em sua orelha antes de ouvir o clique metálico do celular iniciando uma nova gravação, sozinho.


[Manhã seguinte]


O rádio de pilha na cozinha de um vizinho chiava com as notícias locais:

"... e a polícia ainda não tem pistas sobre o caso do jovem encontrado morto há algumas horas em seu apartamento no centro. O corpo de André M. foi localizado sem sinais de arrombamento ou luta. O que intriga os peritos, no entanto, é o estado do seu aparelho celular. O dispositivo foi encontrado fundido à palma da mão direita da vítima, como se tivesse derretido por um calor intenso, embora o restante do quarto permanecesse intacto. No histórico de chamadas, havia apenas uma ligação efetuada às três da manhã para o próprio número. Curiosamente, a operadora registrou a chamada como atendida.”


quarta-feira, 1 de abril de 2026

Dieta diária

Era sábado cedo. Ela decidiu tomar um banho, para inaugurar o final de semana com ânimo revigorado. No banheiro, enxergou-se no grande espelho que escolhera instalar e sentiu-se mais nua do que estava, maior do que o espelho — que estava longe de ser daqueles de aumento. Seu corpo era o retrato de todo o peso que carregava. O corpo escancarava que ela engolia dores, mágoas, frustrações, desilusões.

"Chega!" Na segunda-feira, por mais clichê que fosse, começaria uma dieta. "A transformação física acaba sendo, também, uma transformação psíquica, dizem. E vice-versa."

Durante os dois dias prévios, reorganizou a sua vida, a dispensa e a geladeira. Na segunda-feira pela manhã, animada, bebeu apenas uma xícara de café preto e amargo, e comeu uma banana. Isso seria o suficiente. "Afinal, nós comemos para reabastecer as energias do corpo. A maior parte do que ingerimos são venenos, não alimentos, com o objetivo de suprir prazeres irracionais."

No caminho para o trabalho, o trânsito a estressou mais do que o necessário. "Como as pessoas se revelam no trânsito! Todo mundo só pensa no próprio umbigo!"

Chegando perto do seu emprego, precisava estacionar. Por sorte, encontrou uma vaga bem pertinho do endereço. Assim, dessa vez, ela não se atrasaria. "Viu só? Nem tudo é ruim! É preciso aprender a enxergar o lado bom das coisas, aquilo que acontece de positivo em nossos dias."

Logo no início do expediente, deparou-se com uma quantidade absurda de tarefas para fazer, a maior parte sem qualquer resultado prático. Amuada, arregaçou as mangas e começou a lida, mas sem deixar de procurar uma balinha perdida na bolsa. Seria uma só. Não faria diferença.

No horário do almoço, foi ao restaurante de sempre e preparou um prato bem equilibrado e pouco calórico, considerando, contudo, as calorias da bala, que a fizeram, por remorso, servir-se ainda em menor quantidade. Ela que aguentasse! Ninguém mandou fraquejar. "Disciplina constante!"

À tarde, encontrou o ambiente profissional um pouco mais amistoso. No entanto, na metade do turno, deparou-se com a sua chefe, que a chamou para uma "conversinha", num tom comparável a um espancamento verbal, que a nocauteou emocional e psicologicamente.

Foi ao banheiro para chorar e recompor o seu personagem. Melhor chorar do que descontar na comida. "Quem sabe, as lágrimas até gastassem algumas calorias…"

Enquanto isso, espiando o celular, viu duas faturas que haviam entrado no e-mail e que venceriam logo, assim como uma mensagem do seu contador avisando sobre os prazos da declaração do imposto de renda.

"Tudo bem. Normal. Paciência. Faz parte."

Findo o expediente, voltou para casa, aliviada, mas quase sem forças para ficar em pé. Na sequência, seu filho pré-adolescente retornou da escola, já com a agenda na mão. Ele havia levado um bilhete, que pedia para ela ir no dia seguinte conversar com a direção. O menino não havia feito a lição de casa e, ainda, tinha discutido com a professora.

Essa praga havia passado o fim de semana na casa do pai, que não acompanhava o desempenho escolar e deixava o filho à vontade diante das telas. "É nisso que dá!"

Antes que sua mente cansada processasse o golpe, o malandro correu para debaixo do chuveiro.

Então, após largar a agenda sobre a mesa da cozinha, ela foi ao armário, pegou uma barra de chocolate que decidira guardar para o filho, abriu-a e a devorou vorazmente.

"Dane-se!"

terça-feira, 31 de março de 2026

Mantra

Mantra

 

Cansado de recalcular seus fracassos, decidiu tentar dormir, buscando algum tempo de inconsciência. Sua consciência latejava! Como seria bom se, durante essa tentativa, sua existência se entregasse definitivamente. Talvez doesse, mas seria uma dor final. Uma dor física lancinante seria preferível a uma dor psíquica constante, conjecturava.

 

Como em todas as noites, deitou-se repetindo mentalmente o mantra “que eu não acorde, que eu não acorde…”, prece que era atendida da mesma maneira que aquelas que ele fazia quando ainda tinha alguma fé, alguma esperança.

 

Toda vida humana deve ter um destino. A dele, por sua vez, não tinha sentido algum. Não sabia mais para onde ir, nem onde se encontrava. Em todas as direções, sempre fora o mais frustrado. Queria algo mais, mas era insignificante, vazio (ou cheio demais).

 

Quem sabe, só sentiriam a sua falta quando não estivesse mais ali. Sim. É certo que sentiriam! Ele tem sido um ótimo funcionário, cobrindo as faltas e as falhas dos outros, dos que vivem. Ele sempre foi útil, menos para ele mesmo. Sempre fez favores – só nunca fez o favor de se dar algum valor.

 

Adormeceu. A dor cessou...

terça-feira, 24 de março de 2026

Nossas turmas na escola e a imprevisibilidade da vida

Hoje pela manhã, pensei: poucas coisas demonstram tão bem a imprevisibilidade da vida quanto as nossas turmas na escola.

No fim de cada ano letivo, os alunos costumam imaginar que, no próximo, tudo permanecerá igual: os mesmos colegas, professores, amigos — quem sabe até a mesma sala.

Mas quando o futuro se torna presente, surgem os estranhamentos: alguns mudaram de turma, de escola, de cidade; outros foram reprovados; e há sempre os recém-chegados, vindos de outros lugares ou repetindo o ano. Ao mesmo tempo, antigos amigos podem já não se reconhecer. Afinal, as pessoas mudam mesmo sem sair do lugar.

A ambientação ao novo é difícil para ambos os lados: para quem já se sente pertencente ao ambiente e se incomoda com o novo contexto, e para quem chega e precisa desbravar prédios e pessoas, tentando construir pontes em vez de muros. Para os que permanecem, cabe o acolhimento. Para os que chegam, a coragem. Para todos, a aceitação.

No fim, o tempo acomoda tudo e nos mostra que a vida não deveria ser maremoto, mas sempre lago.