A poesia é o ato de o escritor conseguir transformar os sentidos das palavras e, com isso, mexer com os sentidos dos leitores. Sendo assim, nunca devemos nos esquecer de que poesia é uma característica, um trabalho linguístico, que pode ser encontrado em qualquer texto, enquanto poema é a produção em versos propriamente dita.
Em relação à escrita de poemas, há dois métodos principais: ou o escritor aguarda a chegada da inspiração, a qual ocorre quando a ideia vem completa ou parcialmente pronta à mente, ou ele pensa em uma ideia interessante a ser desenvolvida, escreve uma versão inicial e passa a revisá-la, de modo a construir versos e estrofes cada vez mais criativos. No entanto, não podemos nos enganar: mesmo quando o poema é fruto de mera inspiração — o que costuma resultar em boas criações —, é preciso realizar uma lapidação posterior. Assim como acontece com as pedras preciosas, trata-se da retirada das impurezas, daquilo que não tem qualidade, buscando dar maior valor ao texto final.
Esse processo de revisão também se aplica à elaboração dos versos e das estrofes. Mas o que devemos levar em conta nessa tarefa? Em primeiro lugar, é importante lembrar que versos são as linhas do poema, enquanto estrofes são os conjuntos de versos; ou seja, ao deixarmos um espaço entre esses conjuntos, criamos uma nova estrofe. Em segundo lugar, precisamos nos atentar ao ritmo do texto, que pode ser, ou não, reforçado pelas rimas. De qualquer forma, o poema deve apresentar certa musicalidade, mesmo quando não faz uso delas.
Para quem não sabe, rimas são terminações idênticas ou muito semelhantes presentes nos poemas e nas letras de música, isto é, nos textos em verso. Elas podem ser observadas, por exemplo, em “nariz” e “feliz”, “ação” e “coração”, “janela” e “panela”, assim como em “cachimbo” e “domingo”, “água” e “mágoa”. As rimas podem ocorrer no final dos versos, o que é mais comum, ou no interior deles, recurso menos frequente por exigir maior complexidade na construção do poema.
Em terceiro lugar, sempre visando à máxima criatividade e à riqueza do texto, o poeta deve saborear as palavras, utilizando-as da maneira mais provocativa possível, ressignificando-as e organizando-as de modo a destacar determinados termos nos versos. Isso porque a forma de empregar as palavras, bem como a estrutura dos versos e das estrofes, interfere diretamente no significado geral e no ritmo do poema.
Como uma quarta etapa, é possível explorar recursos expressivos como a repetição de palavras, de versos ou de sons de uma mesma vogal ou consoante, com a intenção de criar efeitos de sentido e estabelecer uma musicalidade sugestiva no texto poético.
Por fim, surge a pergunta: sobre o que podemos falar em um poema? Via de regra, um poema pode versar sobre qualquer assunto. Ainda assim, a poesia tem sido, historicamente, um mecanismo essencial para a expressão de sentimentos, pensamentos e percepções, em suma, de ideias e ideais. Antes de tudo, para fazer um poema, é necessário aprender a se ouvir. Trata-se, primeiro, de uma conversa do poeta consigo mesmo e, só depois, de uma conversa com o leitor. Escrever poesia, enfim, é um exercício de autoconhecimento.
