João era um homem de 45 anos que, apesar de estar sempre à mercê da má sorte, era conhecido por sua gentileza e humildade. Sua vida era marcada pela miséria e pelas dificuldades, mas ele encontrava consolo e alegria na presença de sua filha adotiva, Ana, que fora deixada à porta de seu modesto lar por uma mãe desnaturada.
Ana cresceu e se tornou uma menina adorável, querida por todos na vizinhança. Embora fosse muito brincalhona e sorridente, nunca incomodava ninguém. Tomava o maior cuidado para ser uma presença benéfica para os outros, e não um estorvo. Contentava-se com o pouco que as pessoas tinham a lhe oferecer. Seu único desejo era ter um bichinho de estimação.
Um dia, um gatinho de pelagem cinza-chumbo apareceu nos arredores da casa. O felino permaneceu por ali durante alguns dias e logo despertou o fascínio da menina. João, apesar das dificuldades financeiras, cedeu ao desejo da filha e permitiu que ela adotasse o animal — ou melhor, a gatinha, que recebeu o nome de Ciranda.
A menina cuidava de sua mascote com todo o carinho do mundo, e até João acabou se afeiçoando à pequena criatura. Contudo, vez ou outra, Ciranda desaparecia, reaparecendo somente depois de algum tempo. Havia algo de estranho naquele comportamento, mas Ana não se importava, desde que sua amada gatinha sempre voltasse para casa.
Com o passar do tempo, descobriu-se que Ciranda não era um simples bichano. Durante uma noite de tempestade, o vento assobiava pelas frestas da construção puída, enquanto grossas gotas de chuva caíam com tamanha violência que pareciam ameaçar perfurar o telhado fragilizado. Em curtos intervalos, os raios faziam o breu brilhar por um instante. Foi então que, diante do olhar fixo de Ana, a gatinha se transformou em uma bruxa com a aparência típica das antigas histórias: velha, corcunda, verruguenta, cabeluda, nariguda e queixuda.
A princípio, Ana ficou apavorada. Esboçou um grito mudo e correu para um canto do seu quartinho. Entretanto, conforme os segundos andavam, percebeu que a criatura mágica não pretendia lhe fazer mal, pois seu semblante era terno, e não maligno. Então, a feiticeira, com olhos gentis e um sorriso acolhedor, explicou:
— Fique tranquila, Aninha! Sou a mesma Ciranda que você já conhece. Na realidade, essa é a minha verdadeira aparência. Meu nome é Severiana. Há algum tempo, andei por estes lados e comecei a observar vocês dois, tão bondosos e gentis, mas tão sofridos. Transformar-me em gata foi a maneira que encontrei de me aproximar sem assustá-los. Hoje, amo você como se fosse minha própria filha.
Nos dias que se seguiram, a bruxa, tocada pelo sofrimento e pela benevolência de João e Ana, decidiu intervir. Tendo passado um longo período disfarçada de animal de estimação, descobrira todas as agruras que enfrentavam e conhecera aqueles que lhes faziam mal. Por isso, resolveu assumir a forma de uma jovem de beleza singela e presença cativante, a fim de auxiliá-los no que fosse necessário. Aos poucos, incorporou-se à rotina dos dois, ajudando nas tarefas diárias e trazendo um pouco mais de alegria àquele lar tão humilde.
Após alguns meses, João, encantado pela graciosidade e pela dedicação da moça, casou-se com ela, que começou a ocupar também o lugar de mãe na vida de Ana. Sendo gata, bruxa ou mulher, Severiana se tornara o esteio que faltava àquela cativante dupla. Ciranda ou Severiana, pouco importava: aquele ser mágico surgira para iluminar o tortuoso caminho percorrido pelo pai e pela filha.
Desde então, a sorte dos três mudou. João conseguiu um bom emprego, e a casa, antes marcada pela escassez, começou a prosperar. Aos poucos, as dificuldades foram ficando para trás, e a família desfrutava de uma tranquilidade que, até então, parecia impossível. Aparentemente, tudo acontecia sem prejudicar ninguém. No entanto, algo sinistro pairava no ar.
As pessoas que, no passado, haviam impedido o sucesso de João começaram a sofrer misteriosos infortúnios. Algumas perderam aquilo que julgavam mais precioso; outras enfrentaram adversidades aparentemente inexplicáveis.
Diziam as más línguas que o antigo feitor da vila, homem de grandes posses que tantas vezes humilhara João por suas mãos calejadas, acordara certa manhã e, ao abrir o armário de ferro onde guardava suas promissórias e moedas, encontrou apenas papel roído e pedaços de lata. Na janela do quarto do homem, o único indício da culpada fora um chumaço de pelos cinza-chumbo preso às frestas da madeira.
Certa noite, um dos comerciantes que antigamente recusara um pedaço de pão ao faminto João viu seu celeiro ruir sem que houvesse vento ou tempestade. Instantes antes do estrondo, o homem jura ter visto, do alto do telhado, um par de olhos ovais e amarelos refletindo o brilho da lua, acompanhado pelo som suave e cadenciado de garras arranhando a madeira podre.
Em outra oportunidade, descobriu-se que uma mulher, moradora de uma vila próxima, teve uma intensa dor no ventre e, em seguida, veio a falecer. Poucos sabiam, mas, há alguns anos, essa mesma moça dera à luz uma garotinha que posteriormente foi chamada de Ana.
Coincidência ou não, as desgraças sempre atingiam aqueles que, de alguma maneira, haviam contribuído para o sofrimento do homem e de sua filha. Era como se uma força invisível estivesse punindo cada um deles, devolvendo-lhes, na mesma medida, o mal que haviam causado.
João chegou a ouvir comentários sobre esses acontecimentos, mas preferiu não se aprofundar no assunto. Afinal, depois de uma vida inteira de privações, finalmente podia oferecer à filha o conforto e a segurança que tanto desejara. Ainda assim, em algumas noites, quando observava Severiana sentada à janela, com os olhos fixos na escuridão, sentia um estranho desconforto. Havia momentos em que o sorriso dela parecia esconder algo que ele não conseguia compreender. Talvez fossem apenas impressões de um homem acostumado a desconfiar da própria sorte.
Ana, por sua vez, não tinha dúvidas de que a presença da mãe era uma bênção. Amava-a profundamente e jamais se esquecia de que, antes da chegada de Severiana, as duas vidas haviam sido marcadas pela tristeza e pela pobreza. Para a menina, a bruxa era uma criatura bondosa, capaz de transformar o sofrimento em felicidade e de afastar todos os males que ameaçassem aqueles a quem amava.
E assim os três continuaram vivendo, cercados por uma prosperidade que parecia não ter fim. Severiana permaneceu ao lado do marido e da filha, zelando pela felicidade de ambos e mantendo viva a magia que transformara suas trajetórias. Ciranda, a gata encantada, continuava sendo o símbolo de proteção e esperança que surgira, inesperadamente, no caminho daquela singela família.
Contudo, às vezes, a bruxa voltava a assumir sua forma felina e desaparecia por algumas horas, sem explicar suas saídas. Quando retornava, acomodava-se tranquilamente junto à lareira ou se aninhava no colo de Ana, ronronando como nos primeiros dias. A menina sorria, acariciando-lhe a pelagem cinza-chumbo, sem imaginar o que a companheira poderia ter feito durante suas ausências.
Quem sabe Severiana apenas desejasse garantir que nada mais ameaçasse a paz de seu lar, mas também não se contentasse em proteger aqueles que amava e sentisse que lhe cabia castigar quem ousara fazê-los sofrer. Ninguém sabia ao certo. Enquanto isso, os infortúnios continuavam a se abater sobre aqueles que haviam cruzado o caminho de João e Ana.
Afinal, quem poderia dizer até onde uma criatura mágica seria capaz de ir em nome do amor? Ciranda amava os dois com uma devoção que parecia não conhecer limites. Qualquer coisa poderia ser justificada quando se tratava de proteger aqueles que amava. Com unhas e dentes.
