sábado, 22 de fevereiro de 2014

Sobre o azar

Todos os dias, um cão passava fome. Olhava para um homem e este lhe dava um coice. Olhava para uma mulher e esta lhe expulsava a gritos. Fugia de carros e de bicicletas. Ninguém lhe dava atenção. Também, como ele poderia pedir comida, se não sabia comunicar sua fome? E, ultimamente, nem do lixo deixavam pegar! A sorte vinha quando chovia... Pelo menos, nesses dias, ele podia beber das poças.

***

Todos os dias, um homem passava fome. Pedia para um homem e este lhe dava um pão dormido. Pedia a uma mulher e esta lhe dava uns trocados. Desviava de carros e de bicicletas, embriagado de álcool e dor. Sentado num banco da praça, comia do pão. Com os trocados que havia arrecadado, conseguia um pouco de droga, para esquecer do azar que lhe perseguia.

***

Na praça, o cão encontra um homem desacordado num banco. Ao lado do homem, um pequeno pedaço de pão. Sorrateiramente, o cão pega o pão e corre. E, assim, sobrevive, driblando, travesso, a maldade do homem.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Iguarias

O passado tem gosto de docinho de coco.
O presente tem gosto de noz.
O futuro tem gosto de bem-casados.

A vida tem cor de morango
E cheira a perfume de baunilha –
Café e chocolate amargos,
Atiçando a doçura dos prazeres.


(MENDEL, G. M.. Sobretudo. Erechim-RS: EdiFAPES, 2010. p. 36.)

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

De corpo e alma

Para que você consiga dançar
Não é seu corpo que deve estar flexível,
E sim, o seu âmago.

Para que você consiga apaixonar
Não é seu corpo que deve estar em forma,
E sim, o seu âmago.

Para que você consiga ser feliz
Não é seu corpo que deve estar sorrindo,
E sim, o seu âmago.


(MENDEL, G. M.. Sobretudo. Erechim-RS: EdiFAPES, 2010. p. 35.)

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Sobre cores, meninas e medos

A menina mudou a cor do seu cabelo.
E, juntamente com os seus tons originais,
Ela perdeu a sua autenticidade.

Agora já não era mais um fracasso.
Tornou-se mais uma...
Mais uma daquelas com as quais
Os rapazes querem ficar.

Então, estava pronta para conquistar o mundo,
Pois tinha certeza de que o mundo queria conquistá-la.

Por isso, quis apenas que a vida a levasse,
E, desse modo,
A menina foi levada.


(MENDEL, G. M.. Sobretudo. Erechim-RS: EdiFAPES, 2010. p. 34)


O poema "Sobre cores, meninas e medos" fala a respeito das mulheres que buscam adequar-se à estética da moda e, assim, acabam com a sua verdadeira natureza. 

Na minha opinião, esse é um dos meus melhores textos.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Tarja Preta

Ela sempre fala coisas sem sentido,
Mas para ele é tudo poesia.

O responsável por isso
É aquele encanto pulsante dentro dele,
Cujo poder transforma beleza feminina em fome e anseio,
Simpatia banal em sinal de pureza,
Simples olhares em enormes figuras hipnóticas.

Por isso teme
Que talvez,
Mais uma vez,
Esteja sendo enganado
Por ele mesmo –
Aquele ser cego e bobo
No qual se torna
Em meio às mulheres.


(MENDEL, G. M.. Sobretudo. Erechim-RS: EdiFAPES, 2010. p. 33.)