Poetas, consagrados e anônimos, normalmente dizem que é feio explicar um poema, quase um pecado. Para estes, quem ousa fazer isso age como o Mister M, que demonstrava como os truques de mágica funcionavam, provocando o fim do encantamento. Eles enxergam a poesia como um enigma. Tudo bem se esse enigma respeitar interpretações possíveis a cada história de vida. Mas, quando intenta uma conclusão absoluta, há, certamente, o esvaziamento da mágica.
Não considero de todo condenável a elucidação do autor a respeito da sua obra. Até porque há muitas delas quase indecifráveis. E sinto que os indivíduos perdem o interesse por aquilo que não entendem.
Lembro-me bem das professoras que me ensinaram a ler: a da primeira série, que me mostrou como decodificar as letras; a do ensino médio, que me orientou sobre como identificar características e figuras de linguagem; a do ensino superior, que me fez enxergar nas entrelinhas e saborear os diferentes usos da língua. Creio que as duas últimas foram as que me ensinaram a ler, e a gostar de ler, de verdade.
Por isso, acredito que o escritor que demonstra os modos de construção da sua obra não está entregando o ouro, desfazendo a mística nem prejudicando a experiência. Para muitas pessoas comuns, que têm pouco contato com a Literatura, isso é fundamental para estabelecer compreensão e provocar a vontade de experimentar mais, de provar se elas também são capazes de perceber.
Do contrário, as mesmas razões que afastam indivíduos da Matemática, por exemplo, irão distanciá-los da poesia.
A poesia é o ato de o escritor conseguir transformar os sentidos das palavras e, com isso, mexer com os sentidos dos leitores. Sendo assim, nunca devemos nos esquecer de que poesia é uma característica, um trabalho linguístico, que pode ser encontrado em qualquer texto, enquanto poema é a produção em versos propriamente dita.
Em relação à escrita de poemas, há dois métodos principais: ou o escritor aguarda a chegada da inspiração, a qual ocorre quando a ideia vem completa ou parcialmente pronta à mente, ou ele pensa em uma ideia interessante a ser desenvolvida, escreve uma versão inicial e passa a revisá-la, de modo a construir versos e estrofes cada vez mais criativos. No entanto, não podemos nos enganar: mesmo quando o poema é fruto de mera inspiração — o que costuma resultar em boas criações —, é preciso realizar uma lapidação posterior. Assim como acontece com as pedras preciosas, trata-se da retirada das impurezas, daquilo que não tem qualidade, buscando dar maior valor ao texto final.
Esse processo de revisão também se aplica à elaboração dos versos e das estrofes. Mas o que devemos levar em conta nessa tarefa? Em primeiro lugar, é importante lembrar que versos são as linhas do poema, enquanto estrofes são os conjuntos de versos; ou seja, ao deixarmos um espaço entre esses conjuntos, criamos uma nova estrofe. Em segundo lugar, precisamos nos atentar ao ritmo do texto, que pode ser, ou não, reforçado pelas rimas. De qualquer forma, o poema deve apresentar certa musicalidade, mesmo quando não faz uso delas.
Para quem não sabe, rimas são terminações idênticas ou muito semelhantes presentes nos poemas e nas letras de música, isto é, nos textos em verso. Elas podem ser observadas, por exemplo, em “nariz” e “feliz”, “ação” e “coração”, “janela” e “panela”, assim como em “cachimbo” e “domingo”, “água” e “mágoa”. As rimas podem ocorrer no final dos versos, o que é mais comum, ou no interior deles, recurso menos frequente por exigir maior complexidade na construção do poema.
Em terceiro lugar, sempre visando à máxima criatividade e à riqueza do texto, o poeta deve saborear as palavras, utilizando-as da maneira mais provocativa possível, ressignificando-as e organizando-as de modo a destacar determinados termos nos versos. Isso porque a forma de empregar as palavras, bem como a estrutura dos versos e das estrofes, interfere diretamente no significado geral e no ritmo do poema.
Como uma quarta etapa, é possível explorar recursos expressivos como a repetição de palavras, de versos ou de sons de uma mesma vogal ou consoante, com a intenção de criar efeitos de sentido e estabelecer uma musicalidade sugestiva no texto poético.
Por fim, surge a pergunta: sobre o que podemos falar em um poema? Via de regra, um poema pode versar sobre qualquer assunto. Ainda assim, a poesia tem sido, historicamente, um mecanismo essencial para a expressão de sentimentos, pensamentos e percepções, em suma, de ideias e ideais. Antes de tudo, para fazer um poema, é necessário aprender a se ouvir. Trata-se, primeiro, de uma conversa do poeta consigo mesmo e, só depois, de uma conversa com o leitor. Escrever poesia, enfim, é um exercício de autoconhecimento.
01- "Florence: Quem é essa mulher?"(Florence Foster Jenkins), dirigido por Stephen Frears (2016);
- Baseado na extraordinária história de vida de Florence Foster Jenkins e contando com atuações brilhantes de Meryl Streep, Hugh Grant e Simon Helberg, o filme é hilário ao ponto de provocar gargalhadas e comovente o suficiente para arrancar lágrimas — tudo no momento certo.
02- "Caramelo", dirigido por Diego Freitas (2025);
- Drama estrelado por Rafael Vitti e pelo cão Amendoim, acompanha Pedro, um jovem cozinheiro que vê seus planos mudarem após um diagnóstico inesperado. A chegada de um vira-lata transforma sua rotina e revela lições de amizade, empatia e autocuidado. O longa aborda o abandono e o acolhimento de animais, emocionando com a delicada relação entre homem e cão.
03- "Mundos Opostos"(Enos Allos Kosmos), dirigido por Christopher Papakaliatis (2016);
- O filme entrelaça três histórias de gregos que se apaixonam por imigrantes, refletindo dilemas universais como imigração, preconceito e xenofobia, além de combinar poesia e realismo, oferecendo ao público atuações convincentes e diálogos memoráveis. Para mim, sua produção impecável e relevância temática são ingredientes suficientes para transformá-lo num clássico.
04- "Cordeiros e Carrascos"(Shepherds and Butchers), dirigido por Oliver Schmitz (2017);
- Inspirado em fatos reais, esse potente longa-metragem tem como protagonista o advogado John Weber, contrário à pena de morte, que defende no tribunal um jovem acusado de assassinar sete homens. Antes de cometer o crime, o rapaz trabalhava como guarda de prisão, justamente no corredor da morte. Um filme forte, que provoca reflexões fundamentais.
05- "A Princesinha" (A Little Princess), dirigido por Alfonso Cuarón (1995).
- Adaptação da obra de Frances Hodgson Burnett, esse filme mostra que a verdadeira nobreza está presente no caráter, e não nas posses. Com atuações marcantes e uma narrativa sensível, "A Princesinha" revela como a imaginação e a bondade podem suavizar realidades duras. Embora voltado ao público infantil, é uma obra que emociona e ensina em qualquer idade.
Para qualquer professor que esteja em sala de aula na atualidade, é uma difícil tarefa encontrar textos que apresentem bom conteúdo para estudo e, ao mesmo tempo, sejam interessantes para os estudantes. Na minha opinião, enquanto professor de Língua Portuguesa e poeta, percebo que os poemas têm se tornado uma ótima alternativa.
No aspecto da leitura, os textos em verso são, em sua maioria, curtos (dificilmente passando de uma página), lúdicos (pois são divertidos), sensoriais (porque mexem com os sentidos) e ritmados (o que combina perfeitamente com a música, uma forma de arte que agrada tanto às crianças quanto aos adolescentes). Por sua vez, se considerarmos a escrita de poesia, também aqui a pequena extensão ajuda, assim como se mostra instigante e importante, uma vez que, quando alguém coloca sentimentos e pensamentos em verso, essa prática funciona como uma espécie de catarse. Podemos afirmar, então, que leitores e escritores de poesia se reorganizam e se tornam seres verdadeiramente humanos (caso se permitam), tendo em vista que é fundamental deixar a sensibilidade vir à tona, seja para apreciar, seja para produzir textos desse gênero.
Retomando a minha experiência profissional, acrescento que tenho realizado, há anos, um trabalho em que estudo com meus alunos um poema curto por semana. No começo, há certa resistência por parte das crianças e dos adolescentes; depois, eles até pedem para que esse momento ocorra, já que se habituaram a ele, gostaram de participar da análise dos poemas e perceberam o quanto isso agregou à vida escolar deles. Além disso, neste ano, comecei a publicar em meu site pessoal poemas escritos por estudantes que percebo terem mais habilidade para a poesia, não apenas divulgando o que produzem, mas também ajudando-os a melhorar. Essa tem sido uma experiência fantástica, pois comprova que me importo com eles, com o que escrevem, pensam e sentem. Isso também provoca uma corrente do bem entre os discentes, já que eles me indicam outros colegas que escrevem bons poemas, o que tem resultado no aumento do conteúdo postado no site e no engajamento dos alunos nas aulas.
Portanto, o uso da poesia em sala de aula só traz vantagens. Como ferramenta de leitura, desde que bem escolhidos, os poemas fascinam os estudantes, pois os tiram da zona de conforto. E, como ferramenta de escrita, funcionam como terapia para os alunos e os conectam mais aos professores que propõem essa atividade. Em relação aos versos que me entregam para publicação, são textos que não nascem da obrigação ou da busca por nota, mas da necessidade de escrever. Essa prática auxilia na percepção e na sublimação do que sentem e pensam, além de proporcionar protagonismo e autoestima ao jovem poeta. Na sala de aula, a poesia não é dever: é encontro, é respiro, é vida.
Certa vez, um governante encontrou um professor no meio do caminho. Então, sem pestanejar, pegou o facão de desbastar mato que sempre usara e cortou os dedos dos pés do professor. Em seguida, sem dó nem piedade dos gritos e lamentações do outro, ordenou: “Caminha!” – ao que o seu servo obedeceu, com muita dificuldade. Satisfeito com o espetáculo, o mandatário foi-se embora.
Num outro dia qualquer, a cena se repetiu. O governante ficou espantado que o professor tinha arranjado forças para se recuperar. Sendo assim, desta vez, usou a arma branca para eliminar completamente os pés do professor. Depois, vociferou: “Caminha!” – e o outro não conseguiu nem ficar em pé. O senhor afastou-se um pouco do seu servo e estendeu um chocolatinho em sua direção. O coitado do professor, entre lágrimas e lamúrias, tentou se arrastar até a guloseima, que, logo após, foi atirada pelo contente mandatário em sua cara.
Contudo, surpreendentemente, numa terceira oportunidade, o governante enxergou, ou melhor, viu o professor dando um jeito de seguir em frente, com próteses e muletas baratinhas. Ficou furioso! Agora, faria um serviço de qualidade. Utilizando-se dos mesmos artifícios, retirou as pernas do humilde educador. Distanciou-se por alguns metros, lançou ao chão uma nota de R$ 50, e, nesta ocasião, o outro esboçou uma reação, mas, posteriormente, desfaleceu. Com isso, o mandatário, gargalhando, orgulhosamente saiu de cena.
Quando lhe perguntaram o que havia acontecido, discursou: “Oferecemos ao nosso servidor todos os benefícios e incentivos possíveis. Porém, carregado de ofensiva ingratidão, ele cada vez demonstrou menos vontade de seguir em frente. E, no momento em que tentamos uma última investida, o sem vergonha desistiu da Educação.”
Vocês já viram o filme “Cidadão Kane” (Citizen Kane)? Trata-se de uma produção cinematográfica de 1941 e tida por muitas pessoas até hoje como a melhor de todos os tempos. O roteiro fala sobre a história de Charles Foster Kane, um personagem criado a partir da trajetória do magnata da imprensa William Randolph Hearst.
Agora, peço perdão, mas terei de dar vários spoilers inevitáveis, de modo a construir o meu posterior raciocínio. O enredo tem início com os últimos suspiros de Kane, quando este pronuncia, finalmente, a palavra “Rosebud". Com isso, o jornalista Jerry Thompson é incumbido de descobrir o sentido desse termo. Então, entrevista pessoas próximas ao falecido e investiga a sua biografia em seus pormenores. Percebe, assim, que ninguém se importava, de verdade, com Charles, que, como costuma acontecer, “comprava” a atenção e a admiração alheias por meio de sua fortuna e de sua influência.
No fim, mesmo depois de realizar uma minuciosa varredura, Thompson não chega à conclusão alguma. Só após, por meio de uma imagem, o público vem a saber que “Rosebud” era o nome do trenó com o qual Kane brincava quando era uma criança pobre. Ou seja, esse foi definitivamente o único objeto que realmente teve algum valor para ele, durante a única época da sua existência em que fora sinceramente feliz.
Apesar de o filme trazer uma lição valiosa e ainda ser um tremendo sucesso de crítica, na época ele prejudicou a carreira do seu diretor Orson Welles, que, como ator, também interpretou o papel principal. Isso porque William Randolph Hearst era contemporâneo à obra e acabou reconhecendo as referências à sua história de vida. Desse modo, não ficou nada contente com o que observou e fez o possível para atrapalhar o filme e os envolvidos nele. Em meio a essa situação, as exibições nos cinemas não pagaram os custos da produção e “Cidadão Kane” somente recebeu, de verdade, alguma atenção quase duas décadas depois.
Vamos agora à segunda etapa deste texto. Contextualizei acima o título e a palavra em questão para que possamos compreender bem aquilo que é precisamente o meu foco aqui: a análise da música “Rosebud”, da banda carioca Jason, fundada ainda nos anos 90. Esse grupo, um dos expoentes brasileiros do estilo musical conhecido como hardcore, sempre compôs canções muito criativas, críticas, irônicas, proporcionando uma valiosa aula de sociologia, psicologia e filosofia a cada disco que lança. E as menções ao cinema não param em “Rosebud”, pois o próprio nome da banda é uma alusão ao serial killer Jason Voorhees, da série de filmes “Sexta-Feira 13”.
Uma das faixas do disco “Eu Sou Quase Fã De Mim Mesmo”, lançado em 2000 pela Tamborete, “Rosebud” não é uma das músicas mais valorizadas da banda, provavelmente por sua densidade, pela exigência de conhecimentos prévios e por conta de sua melodia quase psicótica, combinando com a perturbação mental expressa pelo eu lírico. Mas eu a considero verdadeiramente uma obra-prima, inclusive atentando aos fatores supracitados.
A letra começa nos apresentando a um indivíduo frustrado, que busca respostas para a insatisfação com a sua vida atual naquilo que experimentou durante a infância. A partir daí, ele faz um contraponto entre as inocentes batalhas imaginárias da fase infantil e as atrozes batalhas reais da fase madura. Ainda, reflete a respeito do fato de que, desde criança, não se enxergava como um herói, mas que, hoje, passa a perceber que tudo dá certo para os protagonistas (“Por que lembrar que a vida era só brincar? [...] Será que hoje eu aprendi que os heróis sempre terminam bem?”).
Em seguida, há o refrão, cujos versos nos sugerem que o eu lírico não realizou nada daquilo que idealizara enquanto pequeno, e teme, também, como Charles Foster Kane, recordar-se da infância como o único momento positivo da sua existência (“Perco tudo que eu já sonhei. Ser o que eu não podia ser. Não quero dizer quando morrer: Rosebud!”).
Depois, pergunta-se se não deveria se esquecer dos seus brinquedos de antigamente, possivelmente para tentar parar de sofrer, de se angustiar. E lança uma bomba: “Fui sempre o melhor e não posso mais ser”. Ou seja, na infância, na inocência, nos devaneios, podemos ser exatamente quem quisermos ser. No entanto, quando acordamos para a vida, os nossos sonhos tornam-se meras utopias – e é nesse âmbito que iniciam-se as nossas frustrações.
Na sequência, testemunhamos um personagem falível, que procura viver à sua maneira. Porém, se antigamente, nas ocasiões em que desobedecia, não sofria punições tão severas, atualmente precisa se render às regras e às leis, porque as consequências dos seus atos são mais sérias. Agora, sim, ele deve pagar – por tudo, aliás. Embora já nem ligue mais, tendo em vista que fracassou com o seu eu criança (“Chorar e desobedecer – hoje eu preciso me render. Tanto faz, porque eu já sei o que NÃO vou ser quando crescer…”).
Por fim, considero muito emblemático o verso escolhido para fechar a composição: “Eu queria ter um ferrorama que não andasse em círculos”. Aqui, constatamos que o seu ferrorama não o leva a lugar algum. Isto é, estabelecendo uma analogia com o que é relatado pelo eu lírico, a sua vida não engrena, sempre retorna ao mesmo ponto, nada o leva a seguir adiante.
Em resumo, a maioria dos indivíduos embarca na imaginação fértil da infância, em ocasiões em que pode brincar de ser qualquer coisa, brincar de sonhar, numa criatividade fomentada pelos brinquedos, pelo colorido, pela inocência, pelas incertezas sobre a vida e o futuro, almejando uma existência próspera e repleta de possibilidades para a sua fase adulta. Contudo, quando o futuro se torna o presente, a realidade, a rotina, a solidão e o desalento da vida desabam em cima de cada um, esmagando, por vezes, os desejos e as ambições. Alguns vivem uma vida frustrada, previsível e invisível; outros conseguem, como Charles Foster Kane, concretizar muitos dos seus sonhos, quase sempre a qualquer custo, e se veem mergulhados em uma vida vazia, estampando uma felicidade de mentira, envoltos em quinquilharias caras que não preenchem o seu buraco negro existencial. Poucos são, afinal, os que estão prontos de verdade, encaram a vida e os seus obstáculos de frente, e transformam dificuldades em oportunidades.
E você… também tem o seu “Rosebud”? Também falhou com a criança que já fora, ou virou o herói da própria trajetória?
“A fadiga que sentimos não é tanto do trabalho acumulado, mas de um cotidiano feito de rotina e de vazio. O que mais cansa não é trabalhar muito. O que mais cansa é viver pouco. O que realmente cansa é viver sem sonhos.” (Mia Couto)
01- "O Círculo"(The Circle), dirigido por James Ponsoldt (2017);
- Uma inteligente reflexão a respeito do universo das big techs, dos dispositivos digitais e da falta de privacidade proporcionada pelo mundo moderno.
02- "Coração Sangrento"(Bleeding Heart), dirigido por Diane Bell (2016);
- Um valioso retrato sobre a cumplicidade entre familiares, os relacionamentos abusivos e os prováveis feminicídios.
03- "Birdman - Ou A Inesperada Virtude Da Ignorância"(Birdman: Or The Unexpected Virtue Of Ignorance), dirigido por Alejandro G. Iñárritu (2014);
- Um filme muito inteligente e interessante, com uma história que parte de uma situação micro para abordar uma temática macro, ou seja, as inseguranças e as insatisfações particulares de cada um de nós.
04- "Rolou Uma Química"(Better Living Through Chemistry), dirigido por Geoff Moore e David Posamentier (2013);
- Uma produção muito engraçada que trata com delicadeza temáticas extremamente importantes na atualidade, como: o excessivo uso de medicamentos por parte de alguns indivíduos; a infidelidade como sinal de ruptura nas relações; e a coragem para realizar mudanças significativas.
05- "Pronta Para Amar"(A Little Bit Of Heaven), dirigido por Nicole Kassel (2011).
- Esse longa-metragem destaca-se pela forma sensível e realista com que envolve um assunto tão grave como uma doença terminal, abrangendo os efeitos que essa situação traz para as pessoas com as quais se convive, independentemente do momento da vida em que estão.
O país estava em crise. Crise econômica, crise social, crise política, enfim. No meio da angústia generalizada, Rodrigo, um patriota convicto, depositava sua fé inabalável na promessa de ordem e progresso ao apoiar a provável eleição de um governo de extrema-direita. Não aguentava mais esperar pelo dia da votação. A ansiedade estava perturbando-o mais do que os preços nos supermercados, mais do que o valor do litro da gasolina.
Quando a vitória finalmente chegou, Rodrigo não conseguia conter a sua extasiada esperança. “Agora, veremos o país renascer”, dizia para si mesmo, acreditando firmemente que o novo regime traria estabilidade a todos.
Mas o tempo trouxe uma impensável surpresa ao patriota. Em uma manhã cinzenta, quatro militares bateram à sua porta, incisivamente. “Sr. Rodrigo, precisamos que nos acompanhe”, anunciaram sem oferecer-lhe maiores detalhes, para, em seguida, conduzirem-no ao veículo com certa rispidez.
Mesmo quando o carro o levou violentamente pelas ruas desertas, sua convicção permaneceu: tudo não passava de um mal-entendido, meras formalidades patrióticas. Tudo seria esclarecido facilmente. Somente a escória comunista estava se dando mal com esse governo.
No ambiente lúgubre de um local secreto, surgiram três interrogadores, um mais mal-encarado do que o outro. “Explique as postagens subversivas que você fez há dez anos”, ordenou uma voz fria e autoritária. Gaguejando, Rodrigo tentou se justificar: “Eram outros tempos... Eu... eu não tinha a intenção de prejudicar ninguém. Eu estava iludido com as promessas feitas por aquele líder da esquerda.” Seus nervos não o estavam ajudando em nada, e as palavras dissolviam-se no silêncio perturbador do cômodo.
Momentos depois, enquanto era conduzido por um corredor estreito, um vislumbre brutal quebrou sua ilusão: dois militares, naquele mesmo espaço, vindo do sentido contrário, carregavam insensivelmente o corpo sem vida de um conhecido seu – outro apaixonado patriota. A cena esclareceu-lhe toda a verdade e, naquele instante, o homem desistiu de apoiar o Sistema, fosse qual fosse o seu comandante.
Então, Rodrigo foi levado até a entrada de uma sala sombria, onde entrou definitivamente.
Era uma manhã ensolarada em Brasília, e a cidade tremia com a violência de uma nova passeata. As ruas estavam repletas de pessoas vestidas de verde e amarelo, empunhando bandeiras do Brasil e gritando exigências bem peculiares. No meio da multidão, Lucas, um jovem de cabelos castanhos e alva pele, caminhava ao lado de Rafael, seu par secreto. Lucas vinha de uma família bolsonarista abastada, enquanto Rafael, com seu jeito sensível e olhar profundo, era filho de uma família petista e mais humilde. O contraste entre suas origens era palpável; no entanto, o que sentiam um pelo outro ultrapassava diferenças ideológicas.
Nos encontros às escondidas que tinham, longe das visões críticas de suas famílias, compartilhavam risadas, carícias e algumas utopias. Lucas, no entanto, carregava um peso em seu coração. Ele sabia que sua família jamais aceitaria sua homossexualidade, e a pressão de ser o herdeiro perfeito o sufocava. Rafael, por sua vez, sempre o encorajava a ser verdadeiro consigo mesmo, mas Lucas hesitava. A presença de Clara, a filha do melhor amigo de seu pai, que constantemente flertava com ele, tornava tudo ainda mais complicado.
Certa noite, enquanto se esgueiravam em um parque, a moça, que havia seguido Lucas, testemunhara tudo. A expressão de surpresa em seu rosto rapidamente se transformou em raiva. Sem pensar duas vezes, em seu íntimo, decidiu contar tudo para a família de Lucas. Até porque essa relação colocava em risco o casamento que havia planejado para breve, tendo em vista que o rapaz era lindo, rico e agradável, o que traria certa tranquilidade à sua vida.
No dia da manifestação, Lucas pediu a Rafael que o acompanhasse. Ele queria muito participar daquele evento que fora agendado e divulgado há meses nas redes sociais. Por outro lado, não queria abrir mão de se reunir com o namorado, pois a saudade já se tornava sufocante. "Vai ser como ir a uma partida de futebol no espaço reservado à torcida contrária. Vai ser emocionante!", disse, para convencer o amado.
Enquanto caminhavam lado a lado, trocando carícias discretas, a sensação de liberdade era extasiante. Contudo, a alegria foi interrompida quando um grupo de skinheads, que também participava do acontecimento, começou a cercá-los.
“Olha só, um veadinho e seu namoradinho!”, gritou um dos homens, com um sorriso cruel. Lucas sentiu o sangue gelar. Ele sabia que a situação poderia se tornar perigosa, mas não queria deixar Rafael sozinho. “Fica atrás de mim”, sussurrou, tentando protegê-lo.
A tensão aumentou rapidamente. Os skinheads começaram a empurrá-los, e Lucas, em um ato de coragem, colocou-se em frente a Rafael. “Deixem-nos em paz!”, gritou, com sua voz tremendo, porém firme. O que se seguiu foi uma confusão de socos e gritos. Lucas e Rafael lutaram juntos, valentes, mesmo estando em menor número. A brutalidade da cena era assustadora.
Em meio ao caos, Lucas sentiu uma dor aguda em seu abdômen, motivada por uma perfuração. Ele olhou para Rafael, que estava ao seu lado, tentando defendê-lo. “Rafael!”, berrou, por fim. O cenário ao seu redor começou a escurecer, e ele percebeu que as suas lutas particulares e coletivas tinham um preço terrível.
Quando a polícia finalmente chegou, a cena era digna de uma tragédia shakespeariana. Lucas e Rafael estavam ao chão, com suas mãos entrelaçadas, como se ainda tentassem proteger um ao outro. A passeata, um agressivo ato de resistência, transformou-se em um lamento silencioso.
As famílias de ambos os jovens, ao receberem a notícia, foram forçadas a confrontar a perda de seus filhos, assim como as barreiras invisíveis que os separavam. O namoro de Lucas e Rafael, embora tragicamente interrompido, tornou-se um símbolo do mais honesto amor, aquele que sobrevive em meio à intolerância.
"A poesia não é, necessariamente, métrica." (Mariele Zawierucka Bressan, na obra “Escritos”, página 48)
Na apresentação do volume em questão, Mariele erroneamente diminui sua poesia ao afirmar que, ao reler seus textos, tende a se flagelar; que, quando está sozinha, sua autoestima eleva-se, conferindo-lhe coragem (e, por conta disso, trazendo à tona seus escondidos, desencontrados e reencontrados versos); que seus poemas são uma tentativa de falar com voz humana (como se humana não fosse); que, por meio deles, expõe o ridículo que mora em suas entranhas. No entanto, ao se posicionar dessa forma, comprova que tanto a poesia quanto a humanidade estão incrustadas dentro de si.
"Escritos" é um livro constituído por poemas que fluem e dançam, com rimas naturais e ocasionais, nem um pouco forçadas. Seus versos apresentam o ritmo do eletrocardiograma que é a nossa vida — oscilante, resiliente e visceral.
A autora faz um uso criativo e estratégico das palavras, expressando o máximo com o mínimo de elementos. Além disso, a poetisa joga xadrez com os termos que emprega, formando imagens poéticas inspiradas e lapidadas, buscando a precisão do que sente e do que quer dizer.
Por meio de sua poesia, traz beleza até aos mais temíveis transtornos e dramas humanos; e, de maneira geral, aborda temas variados e relevantes, como: o saudosismo, o estilo de vida moderno, o fazer poético, o protagonismo, o consumismo, o carnaval (e suas máscaras), as angústias individuais, as desigualdades sociais e a política.
Fazendo um à parte, chamou-me atenção a releitura criativa de Quintana e Drummond, aludindo, de maneira equilibrada e sagaz, ao positivismo de um e ao negativismo do outro.
Particularmente, em uma breve análise, meus favoritos foram os títulos "Das incertezas", "Das imperfeições", "Acreditar", "Tanta sola", "Menino do morro", "Releitura", "Cães em bando", "A tecitura", "Sobre a mudança" e "Tempo", sendo esses os que mais me impressionaram a mente e o coração.
Mariele subestima a importância da sua produção, tratando-a como mero passatempo. Mas sua excelente capacidade poética faz parar o tempo enquanto o(a) leitor(a) a degusta. Para mim, esta escritora que se lança tarde na Literatura (antes tarde do que nunca) demonstrou ser superior a muitos(as) autores(as) renomados(as).
Portanto, na minha opinião, "Escritos" é indicado para pessoas sensíveis que desejam ganhar tempo e se deleitar com a boa poesia contemporânea.
01- "Os Embalos de Sábado à Noite"(Saturday Night Fever), dirigido por John Badham (1977);
- Este filme icônico de 1977 é mais do que um retrato do tempo das discotecas -- ele é um mergulho na vida de Tony Manero (John Travolta), um jovem do Brooklyn que busca um escape na pista de dança. A obra aborda temas de identidade, aspirações e as complexidades das relações pessoais, apresentando uma profundidade que eu não esperava observar neste clássico.
02- "Elis", dirigido por Hugo Prata (2016);
- Esta produção cinematográfica é uma biografia emocionante da cantora Elis Regina, uma das maiores vozes da música brasileira. A atuação de Andreia Horta no papel principal foi amplamente aclamada, e o filme retrata de forma sensível e intensa a carreira e os desafios pessoais da Pimentinha, desde seu início até sua trágica morte.
03- "Memórias Póstumas", dirigido por André Klotzel (2000);
- Baseado no clássico romance de Machado de Assis, este filme adapta a obra de forma criativa e fiel. A história segue Brás Cubas, que narra suas memórias e reflexões de além-túmulo. O filme mistura humor, crítica social e uma profunda análise da condição humana, mantendo o tom irônico do original literário.
04- "O Diabo a Quatro", dirigido por Alice de Andrade (2004);
- Esta comédia com roteiro crítico e complexo explora Copacabana e seus diversos personagens. 'O Diabo a Quatro' destaca tanto o político badalado e o apresentador de televisão consagrado, quanto o menino de rua e a prostituta. O filme oferece ao espectador um retrato interessante do Brasil, em toda a sua pluralidade e desigualdade.
05- "Medo Profundo"(47 Meters Down), dirigido por Johannes Roberts (2017).
- Este suspense é verdadeiramente angustiante, tenso e envolvente! A história segue duas irmãs que ficam presas em uma gaiola de tubarões no fundo do oceano. Com recursos limitados e o tempo se esgotando, elas lutam para sobreviver enquanto os predadores circulam ao redor. O filme explora o medo primordial das profundezas e a luta pela vida.
01- "O Último Pôr-do-Sol"(The Last Sunset), dirigido por Robert Aldrich (1961);
- Este filme é um clássico do faroeste, cuja trama gira em torno de um fugitivo que busca refúgio em um rancho e acaba se envolvendo em um triângulo amoroso complexo. A tensão emocional é elevada, e o desfecho da obra é verdadeiramente surpreendente, transformando-a em uma rara peça de arte. Além disso, as atuações de Kirk Douglas e Rock Hudson são memoráveis, enquanto que, por sua vez, a direção de Aldrich mantém um ritmo que destaca os dilemas morais dos personagens.
02- "Terra Estranha"(Strangerland), dirigido por Kim Farrant (2015);
- "Terra Estranha" é um suspense que explora a desintegração de uma família após o desaparecimento de seus filhos no deserto australiano. Nicole Kidman e Joseph Fiennes entregam performances emocionantes, capturando o desespero e a dor de seus personagens. A direção de Farrant cria uma sensação palpável de isolamento e mistério, tornando o filme uma experiência envolvente, embora perturbadora. Por fim, cabe salientar que a narrativa trata de forma impecável a relação entre pais e adolescentes nos dias atuais, destacando o quanto aqueles estão distantes da realidade vivida por estes e os perigos proporcionados por essa falta de controle e de conhecimento.
03- "Rebeldia Indomável"(Cool Hand Luke), dirigido por Stuart Rosenberg (1967);
- "Rebeldia Indomável" é um retrato poderoso da opressão, da resistência, do Sistema, das leis, da justiça, do tédio e da transgressão. Paul Newman brilha no papel de Luke, um prisioneiro que desafia as autoridades da prisão com sua atitude indomável. A direção de Rosenberg equilibra momentos de humor e tragédia, criando um filme profundamente humano e inspirador. Um verdadeiro clássico, merecedor de toda a fama que possui, pois é uma produção comovente, divertida e encantadora.
04- "Emma"(Emma), dirigido por Autumn de Wilde (2020);
- Nesta adaptação da enorme obra de Jane Austen, Anya Taylor-Joy interpreta a protagonista Emma com charme e inteligência. A direção de Autumn de Wilde destaca a beleza visual e o humor sutil da história, encantando o olhar e as emoções. O filme é uma celebração do espírito de Austen, apresentando diálogos afiados e cenários deslumbrantes, os quais comprovam acuradamente as razões que tornaram a autora inglesa atemporal e inesgotável.
05- "Buscando..."(Searching), dirigido por Aneesh Chaganty (2018).
- "Buscando..." é um thriller inovador, contado inteiramente através de telas de dispositivos digitais. A narrativa acompanha um pai que se utiliza da tecnologia moderna para ajudar nas buscas por sua filha adolescente desaparecida. A produção é brilhante, comovente e poética ao mostrar a evolução da família, tanto os momentos bons quanto os ruins, por meio dos registros que são feitos dessas ocasiões (vídeos, fotos, anotações na agenda, interações em redes sociais). Ou seja, como atualmente as pessoas organizam e compartilham suas vidas nos PCs, notebooks, smartphones, etc, são as atividades realizadas nesses equipamentos que contam a história para o espectador. O filme aborda temas de extrema relevância, como privacidade e confiança, perdas na família, o distanciamento entre pais e filhos (principalmente o quanto estes mudam e se afastam daqueles durante a adolescência, transformando as famílias, muitas vezes, em aglomerados de indivíduos que não interagem, nem se conhecem). Surpreendente!