Para qualquer professor que esteja em sala de aula na atualidade, é uma difícil tarefa encontrar textos que apresentem bom conteúdo para estudo e, ao mesmo tempo, sejam interessantes para os estudantes. Na minha opinião, enquanto professor de Língua Portuguesa e poeta, percebo que os poemas têm se tornado uma ótima alternativa.
No aspecto da leitura, os textos em verso são, em sua maioria, curtos (dificilmente passando de uma página), lúdicos (pois são divertidos), sensoriais (porque mexem com os sentidos) e ritmados (o que combina perfeitamente com a música, uma forma de arte que agrada tanto às crianças quanto aos adolescentes). Por sua vez, se considerarmos a escrita de poesia, também aqui a pequena extensão ajuda, assim como se mostra instigante e importante, uma vez que, quando alguém coloca sentimentos e pensamentos em verso, essa prática funciona como uma espécie de catarse. Podemos afirmar, então, que leitores e escritores de poesia se reorganizam e se tornam seres verdadeiramente humanos (caso se permitam), tendo em vista que é fundamental deixar a sensibilidade vir à tona, seja para apreciar, seja para produzir textos desse gênero.
Retomando a minha experiência profissional, acrescento que tenho realizado, há anos, um trabalho em que estudo com meus alunos um poema curto por semana. No começo, há certa resistência por parte das crianças e dos adolescentes; depois, eles até pedem para que esse momento ocorra, já que se habituaram a ele, gostaram de participar da análise dos poemas e perceberam o quanto isso agregou à vida escolar deles. Além disso, neste ano, comecei a publicar em meu site pessoal poemas escritos por estudantes que percebo terem mais habilidade para a poesia, não apenas divulgando o que produzem, mas também ajudando-os a melhorar. Essa tem sido uma experiência fantástica, pois comprova que me importo com eles, com o que escrevem, pensam e sentem. Isso também provoca uma corrente do bem entre os discentes, já que eles me indicam outros colegas que escrevem bons poemas, o que tem resultado no aumento do conteúdo postado no site e no engajamento dos alunos nas aulas.
Portanto, o uso da poesia em sala de aula só traz vantagens. Como ferramenta de leitura, desde que bem escolhidos, os poemas fascinam os estudantes, pois os tiram da zona de conforto. E, como ferramenta de escrita, funcionam como terapia para os alunos e os conectam mais aos professores que propõem essa atividade. Em relação aos versos que me entregam para publicação, são textos que não nascem da obrigação ou da busca por nota, mas da necessidade de escrever. Essa prática auxilia na percepção e na sublimação do que sentem e pensam, além de proporcionar protagonismo e autoestima ao jovem poeta. Na sala de aula, a poesia não é dever: é encontro, é respiro, é vida.
Certa vez, um governante encontrou um professor no meio do caminho. Então, sem pestanejar, pegou o facão de desbastar mato que sempre usara e cortou os dedos dos pés do professor. Em seguida, sem dó nem piedade dos gritos e lamentações do outro, ordenou: “Caminha!” – ao que o seu servo obedeceu, com muita dificuldade. Satisfeito com o espetáculo, o mandatário foi-se embora.
Num outro dia qualquer, a cena se repetiu. O governante ficou espantado que o professor tinha arranjado forças para se recuperar. Sendo assim, desta vez, usou a arma branca para eliminar completamente os pés do professor. Depois, vociferou: “Caminha!” – e o outro não conseguiu nem ficar em pé. O senhor afastou-se um pouco do seu servo e estendeu um chocolatinho em sua direção. O coitado do professor, entre lágrimas e lamúrias, tentou se arrastar até a guloseima, que, logo após, foi atirada pelo contente mandatário em sua cara.
Contudo, surpreendentemente, numa terceira oportunidade, o governante enxergou, ou melhor, viu o professor dando um jeito de seguir em frente, com próteses e muletas baratinhas. Ficou furioso! Agora, faria um serviço de qualidade. Utilizando-se dos mesmos artifícios, retirou as pernas do humilde educador. Distanciou-se por alguns metros, lançou ao chão uma nota de R$ 50, e, nesta ocasião, o outro esboçou uma reação, mas, posteriormente, desfaleceu. Com isso, o mandatário, gargalhando, orgulhosamente saiu de cena.
Quando lhe perguntaram o que havia acontecido, discursou: “Oferecemos ao nosso servidor todos os benefícios e incentivos possíveis. Porém, carregado de ofensiva ingratidão, ele cada vez demonstrou menos vontade de seguir em frente. E, no momento em que tentamos uma última investida, o sem vergonha desistiu da Educação.”
Vocês já viram o filme “Cidadão Kane” (Citizen Kane)? Trata-se de uma produção cinematográfica de 1941 e tida por muitas pessoas até hoje como a melhor de todos os tempos. O roteiro fala sobre a história de Charles Foster Kane, um personagem criado a partir da trajetória do magnata da imprensa William Randolph Hearst.
Agora, peço perdão, mas terei de dar vários spoilers inevitáveis, de modo a construir o meu posterior raciocínio. O enredo tem início com os últimos suspiros de Kane, quando este pronuncia, finalmente, a palavra “Rosebud". Com isso, o jornalista Jerry Thompson é incumbido de descobrir o sentido desse termo. Então, entrevista pessoas próximas ao falecido e investiga a sua biografia em seus pormenores. Percebe, assim, que ninguém se importava, de verdade, com Charles, que, como costuma acontecer, “comprava” a atenção e a admiração alheias por meio de sua fortuna e de sua influência.
No fim, mesmo depois de realizar uma minuciosa varredura, Thompson não chega à conclusão alguma. Só após, por meio de uma imagem, o público vem a saber que “Rosebud” era o nome do trenó com o qual Kane brincava quando era uma criança pobre. Ou seja, esse foi definitivamente o único objeto que realmente teve algum valor para ele, durante a única época da sua existência em que fora sinceramente feliz.
Apesar de o filme trazer uma lição valiosa e ainda ser um tremendo sucesso de crítica, na época ele prejudicou a carreira do seu diretor Orson Welles, que, como ator, também interpretou o papel principal. Isso porque William Randolph Hearst era contemporâneo à obra e acabou reconhecendo as referências à sua história de vida. Desse modo, não ficou nada contente com o que observou e fez o possível para atrapalhar o filme e os envolvidos nele. Em meio a essa situação, as exibições nos cinemas não pagaram os custos da produção e “Cidadão Kane” somente recebeu, de verdade, alguma atenção quase duas décadas depois.
Vamos agora à segunda etapa deste texto. Contextualizei acima o título e a palavra em questão para que possamos compreender bem aquilo que é precisamente o meu foco aqui: a análise da música “Rosebud”, da banda carioca Jason, fundada ainda nos anos 90. Esse grupo, um dos expoentes brasileiros do estilo musical conhecido como hardcore, sempre compôs canções muito criativas, críticas, irônicas, proporcionando uma valiosa aula de sociologia, psicologia e filosofia a cada disco que lança. E as menções ao cinema não param em “Rosebud”, pois o próprio nome da banda é uma alusão ao serial killer Jason Voorhees, da série de filmes “Sexta-Feira 13”.
Uma das faixas do disco “Eu Sou Quase Fã De Mim Mesmo”, lançado em 2000 pela Tamborete, “Rosebud” não é uma das músicas mais valorizadas da banda, provavelmente por sua densidade, pela exigência de conhecimentos prévios e por conta de sua melodia quase psicótica, combinando com a perturbação mental expressa pelo eu lírico. Mas eu a considero verdadeiramente uma obra-prima, inclusive atentando aos fatores supracitados.
A letra começa nos apresentando a um indivíduo frustrado, que busca respostas para a insatisfação com a sua vida atual naquilo que experimentou durante a infância. A partir daí, ele faz um contraponto entre as inocentes batalhas imaginárias da fase infantil e as atrozes batalhas reais da fase madura. Ainda, reflete a respeito do fato de que, desde criança, não se enxergava como um herói, mas que, hoje, passa a perceber que tudo dá certo para os protagonistas (“Por que lembrar que a vida era só brincar? [...] Será que hoje eu aprendi que os heróis sempre terminam bem?”).
Em seguida, há o refrão, cujos versos nos sugerem que o eu lírico não realizou nada daquilo que idealizara enquanto pequeno, e teme, também, como Charles Foster Kane, recordar-se da infância como o único momento positivo da sua existência (“Perco tudo que eu já sonhei. Ser o que eu não podia ser. Não quero dizer quando morrer: Rosebud!”).
Depois, pergunta-se se não deveria se esquecer dos seus brinquedos de antigamente, possivelmente para tentar parar de sofrer, de se angustiar. E lança uma bomba: “Fui sempre o melhor e não posso mais ser”. Ou seja, na infância, na inocência, nos devaneios, podemos ser exatamente quem quisermos ser. No entanto, quando acordamos para a vida, os nossos sonhos tornam-se meras utopias – e é nesse âmbito que iniciam-se as nossas frustrações.
Na sequência, testemunhamos um personagem falível, que procura viver à sua maneira. Porém, se antigamente, nas ocasiões em que desobedecia, não sofria punições tão severas, atualmente precisa se render às regras e às leis, porque as consequências dos seus atos são mais sérias. Agora, sim, ele deve pagar – por tudo, aliás. Embora já nem ligue mais, tendo em vista que fracassou com o seu eu criança (“Chorar e desobedecer – hoje eu preciso me render. Tanto faz, porque eu já sei o que NÃO vou ser quando crescer…”).
Por fim, considero muito emblemático o verso escolhido para fechar a composição: “Eu queria ter um ferrorama que não andasse em círculos”. Aqui, constatamos que o seu ferrorama não o leva a lugar algum. Isto é, estabelecendo uma analogia com o que é relatado pelo eu lírico, a sua vida não engrena, sempre retorna ao mesmo ponto, nada o leva a seguir adiante.
Em resumo, a maioria dos indivíduos embarca na imaginação fértil da infância, em ocasiões em que pode brincar de ser qualquer coisa, brincar de sonhar, numa criatividade fomentada pelos brinquedos, pelo colorido, pela inocência, pelas incertezas sobre a vida e o futuro, almejando uma existência próspera e repleta de possibilidades para a sua fase adulta. Contudo, quando o futuro se torna o presente, a realidade, a rotina, a solidão e o desalento da vida desabam em cima de cada um, esmagando, por vezes, os desejos e as ambições. Alguns vivem uma vida frustrada, previsível e invisível; outros conseguem, como Charles Foster Kane, concretizar muitos dos seus sonhos, quase sempre a qualquer custo, e se veem mergulhados em uma vida vazia, estampando uma felicidade de mentira, envoltos em quinquilharias caras que não preenchem o seu buraco negro existencial. Poucos são, afinal, os que estão prontos de verdade, encaram a vida e os seus obstáculos de frente, e transformam dificuldades em oportunidades.
E você… também tem o seu “Rosebud”? Também falhou com a criança que já fora, ou virou o herói da própria trajetória?
“A fadiga que sentimos não é tanto do trabalho acumulado, mas de um cotidiano feito de rotina e de vazio. O que mais cansa não é trabalhar muito. O que mais cansa é viver pouco. O que realmente cansa é viver sem sonhos.” (Mia Couto)